Mudei de endereço

Postar um comentário

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O primeiro macaco

Ontem tive mais uma comprovação de que a vida nunca sai como planejamos. Eu, que tinha certeza de que o primeiro grande mico a ser assumido e enfrentado aqui em New Orleans seria meu espanhol risível, sigo firme com meu espanhol risível, mas para o mico não estou nem aí. É claro que falar o espanhol que eu falo, em meio a pessoas que efetivamente o falam, é de um ridículo estrondoso - mas que não tem me incomodado mais. Eu diria que a vantagem deste mico é que, embora ele tenha começado como um micão, sempre há a perspectiva de que, daqui a algum tempo (e não vamos calcular quanto tempo seria, por favor), o mico fodão há de atrofiar até virar um miquinho insignificante.

Pois bem. Espanhol à parte, maravilhem-se com o que me sucedeu ao final da aula do prófi de ontem.

Abro a porta para sair da sala. Que vejo eu, bem à minha frente?

Apenas o inseto com o maior potencial de gerar tremendos micos em minha micada alma.

É, minha gente. Uma barata.

Foi necessário meio segundo de reconhecimento, durante o qual repeti para meu incrédulo self: "não, não é possível". Após este ligeiro delay, bati a porta e corri para o fundo da sala o mais rápido que pude, sentando-me sobre uma mesa e mantendo os pés bem longe do chão. Gritei, fiz careta e esperneei - mas pelo menos não chorei!

Enquanto isso, boa parte das vinte pessoas que estavam na sala me perguntavam se estava tudo bem.

Pergunta mais idiota. É óbvio que não estava. "Uma barata", enfim consegui dizer - em português mesmo, que eu já tinha gasto minha cota diária de espanhol.

Uma vez revelada a causa de minha tão grande aflição, quase todas as vinte pessoas me olhavam como se eu fosse uma retardada mental - o que, em se tratando de baratas, de fato sou.

Entendam por favor o seguinte. Meu medo de baratas é um sintoma sério, e com sintoma não se brinca. Mas, dos sintomas, é o menos pior, pois só preciso lidar com baratas uma vez por ano, ou uma vez a cada dois anos (este ano já detém o recorde absoluto de baratas/ano na minha vida). Se eu tivesse um medo irracional de carros, por exemplo, tudo seria diferente: eu não conseguiria nem sair à rua, e isso limitaria enormemente a minha existência. Eu me sentiria, em uma palavra, obrigada a procurar tratamento.

Aos que vierem receitar antipsicóticos, portanto, que fique registrada a ressalva desde já: o dia em que eu sentir medo de carros ou cavalos, como o pequeno Hans, contrato um psiquiatra. Até lá, porém, prefiro manter a minha casa bem limpinha e dedetizada - melhor remédio para o meu sintoma não há.

Marcadores:

Postar um comentário

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Um mês, dezesseis anos - dois limbos

Dezesseis anos atrás, eu estava muito tranqüila. Minha mãe estava em coma e eu estava num limbo. Pois, na verdade, minha mãe não estava em coma nenhum - claro. Ela estava escondida num fundo de armário esperando para ser resgatada. E, com essa certeza, passei o dia absolutamente impávida. Sem o menor sinal de angústia. Lembro que a então namorada de meu pai me levou para passear. Eu gostava dela. Eu estava feliz.

No dia seguinte, minha mãe morreu. E parte dela continuou no armário, para sempre.

Mas, ainda que bem protegida no fundo de um armário, eu não tinha mais contato com ela. Então comecei a pensar no lado bom da coisa toda. Isso do lado bom - eu vou dizer. Que se um dia inventarem uma medição para o sofrimento humano, a maior unidade de medida deveria ser o Lado Bom - indicativo do esforço que o sofredor precisa fazer para encontrar uma inexistente vantagem numa situação que é só tragédia.

Então naquela época meu sofrimento era de aproximadamente 100 000 LB. E qual era o grande Lado Bom da Coisa? Que uma saia-short roxa da minha mãe, que eu adorava, agora ia ser minha. Ha! Eu era mesmo uma menina de muita, muita sorte.

O sofrimento LB, como todo sofrimento defensivo, vem para evitar um sofrimento maior, que tememos - eu temia - não poder suportar.

Não deixa de ser revoltante pensar que o Sofrimento Maior é sempre melhor de ser sofrido do que o LB. Porque pelo menos é verdadeiro.

Dezesseis anos depois, tenho um mês de Estados Unidos nas costas, e um limbo como morada. Ainda não cheguei de todo. Há duas semanas, eu me dava conta de que podia sentir falta de um bombril - e o limbo era menor. Hoje, o que eu não daria para poder sentir falta de coisas para a casa. De fazer uma lista de supermercado. Tá, estou sendo dramática - foda-se. É isso mesmo. Maior drama. Porque passou-se um mês, e eu não posso fazer uma compra de supermercado - porque pode ser que a gente precise evacuar de novo, e aí não dá pra deixar a comida micando e mofando na geladeira. Como eu queria fazer uma lista de supermercado decente. Como eu queria lotar a minha geladeira de bobagem.

Outra coisa (outro limbo): ainda não falo espanhol direito. E tenho medo de tentar.

E a base principal deste solo de nuvens que constitui o meu limbo particular: chegou a vez de a minha avó ir para o armário.

Ok, minha avó não morreu. Fato.

É fato também que, para a criança muito pequena, ausência e morte dão exatamente na mesma.

Seguindo com os não-pensamentos, portanto: estou pequeninha de tudo. Um bebê. Sem mãe e sem avó.

Por outro lado - definitivamente, eu cresci. Porque meu sofrimento LB, agora, é zero.

Eu até tentei. Esforcei-me para imaginar que no fundo era ótimo, minha avó não ter conseguido o visto. Porque imagina? Se ela conseguisse, ia vir pra cá pra ficar me enchendo: "filhinha, juízo!".

Não rolou.

Porque a verdade é que eu adoro quando a minha avó me chama de filhinha e fala que é para eu ter juízo.

Eu adorava ver minha mãe vestindo aquela saia-short roxa.

Marcadores:

Postar um comentário

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A idéia era ir até o banco

Que fica praticamente na esquina de casa. Então eu fui. Só que eu fui que fui. Passei banco, mercado, posto, locadora, padaria e quando vi, já estava quase em outro bairro.

Dei meia-volta agradecendo aos céus que a Bel, uma pessoa boa, altruísta e equilibrada, estará comigo nos primeiros dias de New Orleans fazendo o meu AT*.

Pois nunca estive tão concreta: gravar disquinho, tomar vacina, arrumar mala; um, dois, feijão com arroz. É o máximo a que meu pensamento chega. Lembra um pouco a angústia pré-vestibular de anos atrás. Fiz dois vestibulares na vida e, nas duas vezes, sofri de uma angústia que se manifestou em duas fases. Primeiramente, indo para a escola onde eu faria a prova, o medo era de ter esquecido o RG. Eu desenvolvia, assim, um TOC momentâneo, conferindo a cada 2 minutos se ele estava mesmo na bolsa. Pior: eu tinha certeza de que, mesmo se o RG estivesse lá, não ia adiantar, pois ele não seria aceito por algum motivo estroboscópico qualquer. Quando enfim eu entrava na sala, acabava o problema do RG e sobrevinha a angústia pré-prova: "sua idiota, o que você ficou fazendo esses meses todos que não estudou direito e só jogou paciência?" E eu virava uma Socratinha - só sabia que nada sabia, e me doía o estômago.

Até a prova chegar. Quando o tomador-de-conta da sala finalmente nos permitia abrir a prova e sentar o pau na máquina, eu me divertia muito. Pulava as questões de física e química, que ninguém é de ferro, gabaritava em português e inglês, que algum talento se há de ter, e me virava em todo o resto. Nas duas vezes, fiz o suficiente para passar.

Até aqui, a coisa vem se repetindo. A fase do RG foi na época do visto. Eu tinha certeza de que o entrevistador encontraria algum problema na minha documentação e não me concederia visto algum. Só que a viagem da minha casa até a escola durava quinze minutos. O processo de obtenção do visto, mais de mês.

E agora estou na fase recriminatória. Mais uma vez, a culpa de tudo é a paciência. Quem mandou ficar jogando paciência em vez de... De... Bom, desta vez não sei o que eu poderia ter feito em vez de jogar paciência, mas não é esse o ponto. O ponto é o medo. Enquanto não vejo a prova aberta na minha frente.

Até lá, estou aceitando voluntários para revezar o Acompanhamento Terapêutico com a Bel.

E, chegando lá, espero me divertir com a prova.


*O Acompanhamento Terapêutico, para quem não sabe, é uma modalidade de atendimento psicológico que ultrapassa as paredes do consultório, podendo se realizar na casa do paciente, em instituições ou espaços públicos.

Marcadores:

Postar um comentário

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Complexo de Édipo

Prova irrefutável de que padeci do Complexo de Édipo: Os livros dos meus pais possuíam um carimbo logo na página de rosto, onde se lia "propriedade de Olivio e Agar". Talvez este carimbo tenha algo a ver com o Círculo do Livro, mas não estou bem certa. O fato é que a visão dos nomes deles unidos pela posse de um livro - ou antes, como se o livro fosse fruto da união deles - impressionou-me a ponto de transpor a coisa para os CDs, só que - claro - com meu nome substituindo o de minha mãe. Fiz e imprimi diversas etiquetinhas com as palavras "Olivio e Camila", e fui grudando uma a uma no verso dos nossos CDs, por sob a embalagem de acrílico. Dava um trabalho desgraçado, pois era necessário desmontar as caixinhas de CD uma a uma.

Prova adicional de que padeci do Complexo de Édipo: Quando anos depois - mas ainda muito antes de descobrir que Freud e Froid eram a mesma pessoa - me dei conta da semelhança entre carimbo e etiqueta e do que ela implicava, senti vergonha.

Prova irrefutável de que, mal-e-mal, elaborei o Complexo de Édipo: Muito rapidamente o desmontamento de caixinhas cansou a minha beleza e as etiquetas perderam toda a graça e o sentido. Os CDs etiquetados vão só até a letra C.

Prova adicional de que, mal-e-mal, elaborei o Complexo de Édipo: Hoje acho muita graça nessa história toda.

Marcadores:

Postar um comentário

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O de sempre

De novo, o assunto dos tchaus, despedidas, mortes, abandonos e renascimentos. Que é o assunto mais difícil de todos e por isso foi o tema central da minha análise e do meu mestrado. Porque eu precisava - eu preciso - ficar um pouco menos aflita com essas coisas.

Toda a minha análise se resume à desconstrução da cena mais terrível da minha filmografia particular. Quarta temporada de Alias: Sydney e Nadia descobrem que sua mãe, por todos dada como morta, estava viva. Capturada pelos inimigos. Então elas vão lá e resgatam a mãe. Entendam bem o que estou dizendo: elas descobrem que a mãe não estava morta, estava viva. No meu universo psíquico, não pode haver maravilha maior do que esta. Acreditei nisso a minha vida toda: a única diferença de Agar para Irina é que esta era mantida num esconderijo subterrâneo, enquanto minha mãe mofava num fundo de armário. De resto, vi materializado na tela tudo em que acreditei a minha adolescência inteira, embora não o soubesse.

Precisei da análise para dar início a um processo que não tem a menor possibilidade de acabar, mas tem todas as possibilidades de se desenvolver muito bem: viver sem a expectativa de que a qualquer momento minha mãe saltará do fundo do armário. Ou melhor: não precisar desta expectativa para poder viver. Perceber que minha mãe não precisa estar num armário. Porque ela já está em mim, e sou muito mais preciosa que qualquer item de mobília.

Todo meu mestrado consistiu em estudar este processo, só que aplicado a outro objeto - em vez da mãe, teorias que nos são caras. Fui estudar a dificuldade que os analistas temos de nos desapegarmos de teorias que não existem mais, mas que amamos tanto; estudei os entraves gerados por esta dificuldade na clínica e as vantagens de tirar uma teoria do armário e armazená-la dentro de si próprio. Escrevi sobre tudo isso, mas a riqueza do trabalho consiste justamente em eu ter vivido esta experiência com alguns textos teóricos específicos: o processo de luto e internalização da teoria foi vivido ao longo do mestrado, transparecendo, assim, em meu próprio texto. Com isso, minha dissertação não é uma escrita-sobre (alguma coisa), é uma escrita-que-é (a própria coisa). Tenho muito orgulho disso, e nenhuma modéstia. E não é nem porque só Deus sabe o quanto trabalhei (até porque não é verdade - meu ex-namorado e a Bel também sabem), mas porque minha vida melhorou muito com e após o mestrado e a análise. Orgulho-me de ter querido - e conseguido - viver melhor; orgulho-me de ter percebido que minha vida poderia ser melhor do que era. Eu estava certa.

Essas conquistas são permanentes e preciosas, o que não implica que sejam estáticas. Vez ou outra bate o medo da recaída no diálogo com os mortos.

Domingo à noite, eu queria tentar um diálogo com alguém que, morto, dera sinais inequívocos de vida, confundindo-me bastante. Quem sabe não é um coma?, pensei.

De um lado, o medo da recaída - de agir como se determinadas coisas e pessoas estivessem vivas quando há muito já se foram.

De outro, a dúvida do coma. Porque eu gostava desta pessoa que se matou para mim. Gostava mesmo. E quando a gente gosta - e a pessoa em questão não é uma imbecil - sempre vale a pena acreditar.

Felizmente, a dúvida prevaleceu. Por um minuto e meio, dei voz a ela.

No fim, a pessoa gostada tinha morrido mesmo. E ainda estou bem triste com isso.

Mas a tristeza, querendo ou não, passa.

O que não passa, e que me deixou feliz da vida, foi constatar que eu posso ter dúvidas. Eu posso insistir. Eu posso olhar uma última vez para dentro do armário.

E, então, seguir vivendo.

Marcadores:

Postar um comentário

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Um ano de blog

Esta semana - este blog - um ano.

Há um ano terminava um mestrado que, menos importante de tudo, ensinou-me a ler e a pesquisar. Terminava uma experiência que me ensinara a transformar em bomba propulsora uma paixão aterradora que, se deixada sem mestrado, viraria prisão perpétua.

Terminava uma análise que me ensinou ser impossível ser feliz sozinha numa relação em que o outro mal-me-quer. Terminava uma experiência que me ensinara que as coisas terminam.

Terminava um namoro abençoado que me ensinou a ser mulher de um homem magnífico.

Terminava um blog que me ensinou a não ter medo de querer escrever.

Terminava, enfim, a terceira temporada de uma série que não me ensinou nada, mas viciou bem.

Depois da terceira temporada, conforme eu previra, veio a quarta; também de acordo com minhas previsões, a nova temporada veio a ser bastante distinta de tudo o que eu havia previsto.

Depois do nominimo, e igualmente dentro dos conformes, vieram blogs independentes até muito mais legais do que o nominimo jamais foi.

Depois do namoro, que preguiça recapitular: foras tragicômicos, bachelors improváveis, bachelors promissores, O Grande Amor, o grande abandono, grandes e pueris divertimentos.

Depois da análise, veio a vida sem análise. Que não é pior que a vida com análise. E todavia não é melhor.

Mas o que viria depois do mestrado, eu não tinha como saber.


***

É junho. Faz frio e tenho fome. Tenho mais fome que em todos os invernos passados.

Não preciso mais prever o futuro.

Marcadores:

Postar um comentário

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Este era pra ser um post engraçado

Era mesmo, juro. Se bem que a intenção da graça costuma ser o maior antídoto contra esta. Mas vamos dar algum crédito à minha verve cômica e supor que, sim, o texto era engraçado. Ou divertido, ao menos. E eu o vetei. E fiquei pensando nos motivos pelos quais o fiz, e de repente o veto ficou bem mais importante que a graça em si.

Segue o texto escrito ontem, com o veto devidamente explicitado:

"Hoje aprendi duas coisas numa conversa com meu marido por 10 dias em New Orleans. Primeiro, que a vida é um rio - mas essa lição fica para outro dia. O segundo e importante aprendizado foi o insight que segue:

Estou começando a poder rir do tremendo fora que levei. Não, não superei nada - nem a humilhação, nem a dor nem o desprezo; não estou ótima. Mas pelo menos estou rindo. E muito. Principalmente com a lembrança do que passaram a ser as conversas telefônicas com o ex lá em NOLA:

**Insiram aqui o que for do gosto de vossas imaginações.**

Dizem que rir é o melhor remédio. (Nunca entendi isso.)

Pelo menos desta vez, o riso pareceu-me um primeiro sinal de cura."

Vale dizer que o parágrafo em questão trazia apenas falas de minha autoria.

O trecho não era propriamente ofensivo. Mas, ao mesmo tempo, não havia a menor possibilidade de alguém ler a reconstituição da conversa, mesmo que de um lado só, e não achar o cara um completo idiota. E este blog não se propõe a chamar ninguém de idiota - a não ser eu mesma, que isso é dos melhores exercícios de auto-confiança que há. Naturalmente, no caso, julgo-me a mais idiota dos dois, pois quem se apaixona pelo idiota é sempre mais idiota que o próprio. Mas o causo é que a questão não é essa - e sim que, ao escrever com intenções de espelhar no texto o que aconteceu na realidade, deixo de falar do ex-namorado objeto-interno para falar do objeto-externo novamente, coisa de que abdiquei faz tempo. Aliás, a verdade é mais complexa do que isso - pois todos sabemos que, de fato, é só de um objeto interno que posso falar agora. Construir um texto pretensamente calcado na realidade seria fingir para o leitor que estou falando de um objeto-externo, quando estou falando o tempo todo do meu próprio desespero e abandono. E esses sentimentos, agora, são só meus. Quem os provocou não tem mais nada a ver com eles.

Então é óbvio que eu acho meu ex-namorado um idiota. Ele me deu todos os motivos para isso. Mas é óbvio também que ele não deu motivo nenhum para mais ninguém - dizer nada de ruim a seu respeito. E o post como estava era um convite para isso: uma chuva de comentários fazendo pouco do cara. Eu não preciso disso.

Mas é claro que há também um motivo muito menos nobre para eu não divulgar o tal parágrafo. É nisso que dá, amigos, ser abandonada desta forma (nessas horas até me esqueço dos tantos outros foras que eu mesma generosamente distribuí pelo mundo) - vejam até onde vão as fantasias de rejeição de uma frágil rapariga: e se, um belo dia, um homem interessantíssimo lê este post e se atemoriza. Fica com medo da minha grande língua e dos meus dedos maiores ainda, digitando tresloucadamente.

Felizmente, a rapariga não é tão frágil assim. Porque se um homem tem medo de mim - como vem sendo o caso - bem, então a verdade é que ele não era nada interessante.

Simples assim.

Marcadores:

Postar um comentário

sábado, 5 de abril de 2008

O horror dos bachelors bobinhos: antepenúltimo texto ressignificado

Conversando ontem com a Nath, os bachelors bobinhos revelaram uma face de horror que até então eu não percebera - e o texto deixou de ser um exercício frívolo de fazer gracinha para representar tudo aquilo que mais tenho medo de voltar a ser.

Porque os bachelors, como sói acontecer, são eu.

Durante muito tempo senti-me culpada por não ser alguma coisa que eu mesma não sabia exatamente o que era, mas que definitivamente tinha a ver com ser mulher.

No outro término por e-mail que vivi - impossível não revisitar esses sentimentos agora -, não me restou a menor dúvida de que a culpa era toda minha. Claramente, eu havia feito por merecer. Não era suficientemente inteligente, sensível, culta, experiente, musical, boa de cama ou fotogênica. Cada dia eu achava que me faltava uma dessas qualidades, ou alguma combinação maluca de duas ou mais delas. Em suma, eu não era mulher o bastante. (E, em certa medida, não era mesmo, porque só uma menininha-mulherzinha para se deixa atolar em questionamentos tão básicos sobre a própria identidade - e, francamente, para se levar tão a sério.)

Ora, os bachelors de NY sofrem deste mesmo mal: não se acham homens o bastante. Não estão confortáveis com quem são, e precisam recorrer a pessoas, imagens e conhecimentos externos para se bancar num relacionamento - e, o que é mais grave, num relacionamento que ainda nem existe. O Bachelor #1 alardeia uma amizade, o Bachelor #2 um gosto e o Bachelor #3 um conhecimento (sobre instrumentos musicais). Nos três casos, coisas que eles não têm ou não são (ou, no caso do Bachelor #1, até pode ser que tenha - mas e daí? O que isso me diz sobre ele? Como a amizade de um músico que admiro poderia torná-lo uma pessoa mais interessante aos meus olhos?)

Mas aí é que está: tenho certeza de que os três bachelors sentiram-se mais desejáveis uma vez anunciada suas características especiais - seus superpoderes. Que, por serem super, eles não puderam manter por muito tempo - afinal, são apenas homens.

Apenas homens. E eu apenas uma mulher.

Uma mulher que, como eles, por muito tempo achou insustentável não ser amiga do Toninho Horta, não gostar de jazz e não saber a diferença entre um trombone e uma tuba.

Tenho medo de voltar a ser - de querer voltar a ser - uma caricatura grotesca de uma mulher que sabe-se lá quais superpoderes precisa ter.

Felizmente, dia desses o Alex me relembrou de que a gente só tem medo do que não aconteceu ainda.

Mas, se a gente tem medo, está perigando acontecer.

É compreensível - a tentação é grande. Vontade de se deixar soterrar por representações fantásticas quando sou apenas uma mulher que levou um pé na bunda fenomenal.

Não quero mais o fantástico: quero aquilo que é; aquilo que sou.

Quero bachelors assim:

Bachelor Ele-Mesmo #1: Então quer dizer que você gosta do Toninho Horta? Que legal, eu também!

Bachelor Ele-Mesmo #2: Ouço todos os tipos de música, mas gosto mesmo é de rock / bolero / polca.

Bachelor Ele-Mesmo #3: Essa foto vai ficar boa, com aquele instrumento bizarro ao fundo.

Quero sobretudo ser uma mulher e bachelorette digna de bachelors como esses.

Marcadores:

Postar um comentário

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O ganho mais importante da minha primeira análise

Quase não chorei hoje - em compensação, estive séria, sinistra e lúgubre o dia todo, mais do que nos outros dias. Por isso resolvi escrever o textinho idiota abaixo para compensar. Falando de bachelors mais idiotas ainda, tadinhos, tentando me impressionar por coisas que eles não são.

É a segunda vez que terminam comigo por e-mail. (Existem outras coincidências muito tenebrosas entre essas duas vezes e esses dois homens, mas isso fica para a próxima análise.) Torcemos para que o próximo homem com ganas de me dispensar à distância o faça via tambores - pelo menos seria uma coisa assim mais musical, mais étnica, né?

Agora, existe uma diferença fundamental entre a primeira vez e a segunda. Fundamental.

Desta vez, minha auto-estima não está (muito) abalada.

Surpreendentemente, não estou me achando boba, feia e chata.

Olho para as fotos da viagem e vejo ali uma mulher interessante. Mesmo nas fotos em que meu excesso de peso aparece em toda a sua opulência; mesmo nos textos bobos que este blog faz questão de manter no ar - diviso uma pessoa que me alegra pensar que sou eu.

Porque me sentir satisfeita comigo mesma após escrever um texto bacana ou sair bonita na foto é relativamente fácil.

Difícil mesmo é continuar confiante depois de escrever um texto como o do último post ou vestir uma calça de moletom que por muito pouco não chega a cocô-carça.

Talvez tenha sido este o ganho mais importante da minha primeira análise.

Marcadores:

Postar um comentário

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Follow-up da fossa

Como assim

De manhã, no espaço de uma hora, falei com três pessoas tão diferentes quanto queridas - para avisar que cheguei, que a viagem foi ótima, e que.

E essas três pessoas de universos tão distintos - uma advogada, um músico e uma psicóloga; uma amiga de infância, um amigo da internet e uma amiga do trabalho - reagiram à notícia com o mesmo espanto e, mais espantosamente ainda, com precisamente as mesmas palavras:

Como assim?

Não lembro o que respondi para nenhuma delas.

***

O encalhe das lingeries

Nada ressoa mais a fim de namoro do que lingeries novas ainda envoltas nos papéis cor-de-rosa da Victoria's Secret.

Comprei, ao todo, quatro presentes para o Rafa. Nenhum deles grande coisa, claro. Mas cada um gestado e materializado com o carinho e a paixão que me transbordavam - e ainda transbordam - naquele momento. Não cansava de visualizar a hora em que os entregaria, contando todas as circunstâncias que envolveram cada uma das compras - onde eu estava, com quem, de onde veio a idéia do presente, o sentido inerente a cada um deles - enfim, as coisas bobas que a gente morre de vontade de contar quando quer dar alguma coisa para alguém.

Esses presentes são o de menos. Encontrarão bons destinatários, a quem terei o cuidado de avisar antes que não se trata de receber presentes, mas de me ajudar na elaboração de uma perda.

As lingeries, contudo, terão de ser elaboradas de alguma outra forma.

Comprar lingerie tendo uma pessoa em vista é o início do sexo.

Passei duas horas escolhendo lingeries que me caíssem bem, é claro - mas, principalmente, que me fizessem bela e desejável aos olhos dele, só dele. Era esse o sentido da compra - era esse o critério.

E agora?

Em primeiro lugar, a raiva imediata e incontida de uma consumidora frustrada: deixei de comprar algumas peças de lingerie básica para investir em lingerie sensual.

Só uma mulher sabe da dificuldade de encontrar o sutiã perfeito. Um que não aperte, não esprema, não achate e não desloque os peitos pra baixo nem pros lados. Um que com o tempo não encolha nem lasseie, não esmague nem afrouxe, cujas alças mantenham-se firmes e suaves, cujos bojos mantenham a forma arredondada e cuja estrutura não desprenda arames farpados.

Amigos, eu achei este sutiã.

E deixei de comprar o preto - justo o preto! - para adquirir peças sem funcionalidade alguma. Com o puro intuito de agradar, seduzir, estimular.

Por alguns instantes, confesso que meu afã consumista em busca do sutiã perfeito levou-me a considerar um erro o dispêndio de tanto tempo e dinheiro naquilo que, como a poesia, a música e uns poucos blogs, não tem objetivo definido - só beleza.

Mas meu afã feminino é maior.

Não vou deixar que tragédia amorosa alguma imponha limites aos meus desejos de dar a um homem - uma peça de roupa, meu corpo envolto em renda e charmeuse.

***

O impasse

Como eu queria não desejar que ele mude de idéia e me ligue - daqui a uma semana, um mês, um ano.

A esperança de que os mortos voltem à vida é o sintoma mais mortífero de minha existência, assola-me desde muito antes de mortes factuais, mata-me para o prazer e acende-me para um mundo interno parado e viciado, em que tudo é como eu gostaria e nada corresponde à realidade.

Vejo-me impossibilitada de não desejar que ele me ligue e diga - ô, linda.

Mas nada disso me é novidade.

Essa constelação psíquica é velha conhecida minha.

A novidade está em que, desta vez, o baque foi tão grande, a decepção tão profunda, que mesmo que ele efetivamente me ligue - daqui a uma semana, um mês, um ano - não sei se conseguiria recebê-lo de volta.

Ao Rafa-interno agregaram-se com toda a força as qualidades da imaturidade e da covardia.

É por isso que sei que acabou mesmo.

E ninguém imagina o esforço que preciso fazer para digitar isso.

Acabou mesmo.

Marcadores:

Postar um comentário

sexta-feira, 28 de março de 2008

Mais um post de mentirinha


Mari, eu e Bel no Met

***
Depois de um dia agitadissimo, cheio de pessoas e pensamentos novos, um pit-stop no Alex - que dorme largado enquanto digito aqui, eu que a esta hora ja deveria estar no banho - pra ver se a gente se recompoe para a festa do Idelber (eba!).

Mas, com o pit-stop, veio a checagem de e-mails - e, com ela, uma decepcao tao grande quanto as naus europeias, que os indigenas de inicio nao puderam ver. Estou comecando a divisar o casco da proa da decepcao. Nao e bonito.

Mas sabem do que mais? Eu quero ir a festa; logo, quero tomar banho; logo, quero me sentir melhor. E que melhor jeito de se sentir melhor (descontando o jeito "amolar amigos e familiares") do que se ver numa foto em que voce aparenta ser mais bonita do que de fato e?

Para nao falar na vantagem de que, postando a foto aqui, ainda finjo que escrevi um texto de verdade e atualizei o blog.

Marcadores:

Postar um comentário

segunda-feira, 3 de março de 2008

Música em NY, parte I: agora vai

E chegamos mais uma vez àquele momento tão ansiadamente esperado e celebrado: o de abrir o calendário musical do jornalzinho do AllAboutJazz-NY e quebrar a cabeça decidindo o que vou ouvir, quando, quantas vezes e, como não se pode mesmo ter o falo*, o que irei deixar de lado.

Este post tratará do evento musical central desta ida a NY, que faz jus à minha antiga observação segundo a qual os shows que eu deixaria de ver em janeiro seriam substituídos por outros igualmente desejáveis em março. Se, por um lado, houve a baixa irrecuperável, dolorosamente sentida e apenas parcialmente mourned da orquestra da Maria Schneider - entra em cena, na semana em que estarei lá, ninguém menos do que ele. E eu, como tenho problemas mentais e uma difícil história de vida (minha mãe morreu, etc.), estava pensando em não ir. Mas superei ou quero muito superar todas as minhas dificuldades mentais e vitais, e resolvi que agora é a hora - dentre outros motivos, porque a Bel estará comigo e isso me dá uma segurança tremenda - mas, principalmente, porque NÃO VEJO A HORA DE VOLTAR A SER DA MÚSICA DO PAT, que é das coisas que mais gosto de ser na vida. Este post é o início da retomada...

Então. Este será o meu VIGÉSIMO SHOW DO PAT METHENY TRIO. Pretendo chegar pelo menos até o centésimo, até o final dos tempos (= quando o Pat deixar de gravar e tournear). Do Pat Metheny Group foram dez até agora, dos noventa e nove a que pretendo comparecer (shows do PMG são mais raros, não se pode sonhar tão alto).

Voltando ao trio. Ainda não conheço o disco novo - problema a ser solucionado até o final da semana, para meu deleite memorizador e desespero de todo aquele que pegar uma carona comigo, obrigado que estará a ouvir solos de guitarra dobrados por minha terrível-porém-empolgadíssima voz.

Os shows, até onde acompanhei, sempre tiveram duas horas e meia de duração. Suponho que isso não tenha mudado. Já tive minha fase de gravar diversas fitas cassetes com todas as combinações possíveis das músicas que poderiam compor o repertório do show - eu lia as resenhas publicadas pelos fãs em fóruns de discussão - mas agora, aproveitando que não estou acompanhando fórum nenhum, decidi brincar de cabra-cega e montar eu mesma um set-list (vamos combinar, o termo "repertório" é feio como poucos) que me transformaria num ser flutuante pelo resto do mês.

Vamos botar aí uma hora para as músicas novas, o que me deixaria com uma hora e meia para brincar. O critério de agrupamento das músicas foi o andamento; em negrito, as mais fortemente desejadas:

1. Mid-slow:

Esta lista só poderia começar por Question & Answer, o grande achado & realização de toda a história dos Metheny Trios e provavelmente a música dele que mais me emociona depois de First Circle. É claro que estou falando daquela versão do Trio Live de quase vinte minutos, com solo de Ibanez, solo de baixo e solo de synth. Sou capaz de argumentar a noite toda, para quem me pagar umas caipiroskas, que o Pat guitarrista nunca soou, tocou uma melodia e improvisou melhor do que nestes vinte minutos.

Giant Steps, uma fake-bossa em que o baterista é tudo, pois é justamente a levada bossa-nova-de-gringo que possibilita o realce da beleza harmônica da música, normalmente soterrada por andamentos muito rápidos. O bom da versão do Trio Live é que o Bill Stewart não tem a menor idéia do que seja bossa nova, o que faz dele o baterista ideal para criar o clima fake necessário para o Pat calmamente ir despejando seus acordes. E o problema de pensar em ouvi-la com esse novo trio é que o Antonio é apenas o melhor baterista de bossa-nova que o mundo já conheceu**. E não sei se Giant Steps funcionaria como a bossa que o Antonio sabe construir tão bem.

Timeline, a música preferida do meu disco preferido do Brecker, que nunca ouvi ao vivo.

2. Mid-fast:

April Joy, pura nostalgia de um tempo que não vivi.

James, que funciona deliciosamente em formato de trio, sempre impulsionando o Pat a improvisos que momentaneamente me fazem até esquecer da versão original.

3. Up-tempo:

Solar, conforme ouvida no disco do muchacho, porém agora com adição de baixo.

(Go) Get It, conforme ouvida na turnê (outra palavrinha que vou te contar...) do Speaking of Now (disquinho fraco de tudo, mas que rendeu bons momentos ao vivo), também aqui com a adição do Christian.

Lone Jack, que em minha polêmica opinião consiste num samba de gringo de arrepiar. Essa já ouvi o Antonio tocar e argumento para aquela mesma pessoa que me pagou as caipiroskas que ele é o baterista perfeito para esta música.

All The Things You Are, para pirar com o que essas pessoas são capazes de fazer com um standard que poderia ser tão banal.

Round Trip / Broadway Blues, porque um show do PMT precisa de pelo menos dois clássicos do Ornette para decolar.

4. Ballads:

Lonely Woman, que também marcou uma era. Ouço e re-ouço e me delicio em descobrir a obra do Horace Silver, mas LW é insuperável.

Travels, a balada do Pat com o improviso mais perfeito. Tanto que eu adoraria ouvi-la regravada com o improviso como melodia, sendo que a melodia em si poderia ser perfeitamente ignorada em prol de um novo improviso. Não sei como ninguém ainda não fez isso.

Pra Dizer Adeus, que eu ouvi dizer que eles estavam tocando (ok, ainda leio os fóruns de vez em quando) com o David Sanchez. Foi demais para mim. Nunca ouvi o Pat tocar nada do Edu Lobo, e ele foi começar simplesmente pela minha música preferida do Edu. Assim fica difícil.

If I Could, para chorar.

The Moon Is A Harsh Mistress, porque é a balada mais linda de todos os tempos.

E com isso já passamos de uma hora e meia de música, mesmo se só contarmos as que coloquei em negrito.

Vocês hão de ter reparado que listei e negritei mais músicas de andamento rápido e lento. Isso tem menos a ver com uma preferência particular do que com a minha consideração de que estas são as duas zonas rítmicas em que o trio atual - com Christian & Antonio - se sai melhor. O anterior - com Larry Grenadier & Bill Stewart -, indiscutivelmente meu preferido de todos os quatro que possuem registros em disco (os outros dois: Jaco & Bob Moses, Charlie Haden & Billy Higgins), claramente transitava melhor por aquela zona mid-slow da qual Q&A era o exemplo paradigmático.

Para uma retomada, este post está de bom tamanho. Agora é só ouvir o Day Trip e selecionar as outras músicas que eu gostaria que compusessem a hora restante de show.

Mas o melhor de tudo é saber que o show real certamente será infinitamente melhor do que o melhor show que minha mente e meus ouvidos são capazes de conceber.

* Prometo para breve o fim das piadinhas lacanianas bestas. É só uma fase. Me deixem.

** Atenção: não esperem ouvir a bateria do Tamba ou Zimbo Trio. Esperem coisa muito melhor.

Marcadores:

Postar um comentário

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Da felicidade. Sozinha.

Em alguns dos primeiros e-mails interessados que Rafa e eu vínhamos trocando, dei para reparar nos links patrocinados do Google exibidos ao lado das mensagens abertas (tanto eu quanto ele usamos Gmail). Dentre eles, "João Bosco E Vinicius Acabou" (assim mesmo), "Obras Completas de Nietzsche" (quem vê pensa) e, para o meu mais profundo horror, "Namoro Evangélico". Naturalmente, compartilhei meu horror com ele - que nunca havia sequer reparado na existência de tais links - e juntos bolamos um plano para eliminar o namoro evangélico de nosso pouco cristão diálogo. O plano consistiu basicamente em 1) reforçar o envio de beijos de lado a lado; 2) planejar a materialização dos beijos num encontro próximo. Funcionou que foi uma beleza, e desde então vimo-nos livres dos anúncios evangelizadores.

Mas os anúncios foram só a ponta do iceberg cristão. Imaginem uma igreja submersa da qual só se consegue vislumbrar a torre acima da linha do mar. A cruz fincada na torre é o link patrocinado do Google. O resto - o altar, o púlpito, o padre, os santos e, com sorte, até um lindo órgão - constituem algo que não sei se chamo de filosofia de vida, sintoma, pré-concepção ou ser-no-mundo. E desde a fatídica quinta-feira (não confundir com a quinta-feira da Eva nem com a do passaporte), tudo isso vem sendo corroído numa velocidade muito superior à das reações químicas que aprendemos na escola.


A igreja que carrego em minhas costas (dentro, não por sobre elas) ensina-me que sem sofrimento não há felicidade. Que o sofrimento suportado neste mundo há de ser recompensado com a felicidade no além. E se meus professores do colégio me consideravam boa aluna, é porque nunca tiveram acesso à menininha carola que de fato sou e agora estou em vias de declarar que era. Pois desta igreja sou a aluna mais aplicada. Uma aplicação que se nota até em meu já antigo perfil aqui do blog - minha vida amorosa caracterizada como "um desastre, mas também uma delícia". A conjunção adversativa mal consegue disfarçar a filosofia de vida, o sintoma, a pré-concepção e o ser-no-mundo nos quais desastre-e-delícia são como pinga-com-limão e Lennon & McCartney, um amálgama muito mais poderoso do que a soma de suas partes. A delícia que depende do desastre: nada mais cristão - o prazer proveniente da dor bem-suportada -; nada mais conservador - o conservadorismo da pulsão, que patina (goza? Rafa, ajuda!) num sofrimento intocado. Gosto desta imagem nada rigorosa: o sofrimento uma pista de gelo onde a pulsão patina quase sem deixar marcas, culminando num assassinato. O assassinato deixa marcas vermelhas visíveis. Não mais mortíferas que o roçar invisível da lâmina sobre o gelo.


Antes do atual namoro, é claro que já tive meu quinhão de júbilo romântico e erótico nesta vida. O júbilo de agora, por si só, não constitui novidade. A novidade é ele vir sozinho. É não precisar de sofrimento nenhum para me consumir e me acompanhar. E isso sim faz dele uma grande novidade. Por favor, não tentem resolver o paradoxo (não é novidade porque já estive apaixonada antes, é novidade porque nunca estive apaixonada assim antes). Não precisa. O que é preciso é saber que é possível ser feliz sem sofrer. Peço desculpas pela platitude desta observação, mas foram necessários anos de análise e dias de Rafa para que eu chegasse a ela.


Argumentará algum leitor: mas o que seria dos mocinhos sem os vilões? O que seria do azul se todos gostassem do amarelo? Respondo que há lugar no mundo para todos os vilões amarelos que se queiram - eles só não precisam invadir o meu namoro para me fazer feliz. Que venha o sentimento de desastre, nos momentos desastrados. Não estou negando o sofrimento; não estou em mania (OK, só um pouco). Estou apenas (apenas?) experimentando, pela primeira vez na vida, que o prazer amoroso não precisa trazer nenhuma dor embutida para poder ser vivido em sua totalidade.

Marcadores:

Postar um comentário

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Por que a travessia do Édipo e a elaboração da posição depressiva são uma só e a mesma coisa?

Resposta: porque "atravessar o Édipo" significa, em algum momento, odiar a pessoa que você mais ama no mundo. E "elaborar a posição depressiva" nada mais é do que abrir mão do maniqueísmo e se dar conta da complexidade do mundo e das coisas - por exemplo, que posso muito bem odiar a mãe que tanto amo.

Tudo isso para dizer que o mais difícil de tudo no dia de ontem passou longe de ser a frustração com a viagem em si.

O mais difícil foi reviver o Édipo ao perceber-me odiando a pessoa que mais amo no mundo (e calma lá que não se trata de fazer um ranking das pessoas mais amadas, mas apenas de reconhecer um fato, assim como é fato que minha tia é a pessoa que mais amo no mundo - a complexidade do mundo e das coisas, lembram-se?).

E, para o que há de mais difícil na vida, conto sempre com a Bel. Assim como contava com a minha mãe. Só que minha mãe morreu. E de repente fiquei com medo de que a Bel fosse morrer também, num dos piores pesadelos dos últimos tempos.

Só que não matei a minha mãe, embora nem sempre eu acredite nisso. E nem matei a Bel, por mais odiosos que tenham sido os meus pensamentos.

O bom - o fantástico - o absurdo - é que, desta vez, não só eu não matei a Bel, como também nenhum carro vindo na contramão a matou.

Ela está aqui e estará em Nova York. Comigo.

Marcadores:

Postar um comentário

Os fatos

Primeiramente, vamos aos fatos, que senão ninguém entende mais nada nesta bagunça que é este blog.

Ontem embarcaríamos, às 23h45min.

***

11h50min - estou no cabeleireiro tomando um banho de sol nos cabelos (qualquer dúvida, perguntem para o meu cabeleireiro) quando Bel me liga com uma voz cujo timbre imediatemente amoleceu meus joelhos. "Cami, não estou achando o meu passaporte..."

11h51min - momento de retardo súbito: "Bel, sem o passaporte não dá pra viajar, né?". Abstenho-me de fornecer a resposta dela. Segue-se o diálogo padrão. Mas o que aconteceu? Você já procurou? Já viu nas malas, bolsas, gavetas? Sim para tudo, agora a Lu está ligando na Polícia Federal. Ok, qualquer coisa me liga. ("Qualquer" coisa? Não, não estávamos interessadas em "qualquer" coisa; a partir dali e pelo resto do dia, só uma coisa ocuparia nossos pensamentos.)

12h05min - acaba o banho de sol e começa a hidratação. Penso na fantástica história que teremos para contar quando voltarmos da viagem: por um momento achamos que não iríamos mais porque a Bel não achou o passaporte e entrou em pânico, mas logo depois percebeu que ele estava no lugar de sempre e ela é que não tinha olhado direito. Então penso também na fantástica história que eu iria contar quando minha mãe saísse do hospital de gesso no braço depois do acidente, e penso enfim que nunca pude assinar o inexistente gesso do braço de minha mãe.

12h06min - começa a dor no estômago.

13h - chego ao outro salão para fazer a unha (sim, os profissionais da minha beleza espalham-se pelos salões da zona norte) e minha manicure, após elogiar meu cabelo (ficou um arraso mesmo, não é por nada não), pergunta o que eu tenho. Explico que eu ia (vou?) viajar etc. etc. Ela diz que tem tempo suficiente para encontrar o passaporte.

13h20min - clientes e manicures comentam que o Big Brother deste ano terá muita baixaria.

13h25min - clientes e manicures debatem a sexualidade de determinada participante. As manicures tendem a achar que se trata de uma mulher; as clientes, de um travesti.

13h26min - começa a ânsia de vômito.

13h30min - meu celular começa a morrer e subitamente encontro a solução para todos os meus problemas: preciso chegar em casa o mais rápido possível e botar o celular para carregar. A relação entre carregar o celular e encontrar o passaporte assume proporções lógicas que o próprio Descartes não se atreveria a questionar.

14h10min - chego em casa e coloco o celular para carregar.

14h11min - a relação lógica desmorona.

14h12min - ligo para a Ju e deixo recado dizendo que não irei à supervisão, porque... Começo a chorar.

14h45min - Ju retorna a ligação. Paro de chorar para falar com ela. Ela pergunta se já olharam atrás das gavetas. Respondo que sim, ué, é claro que eles já pensaram nisso. Ela diz que, "no nervoso", ninguém consegue achar nada, é assim mesmo.

14h50min - ligo para o meu pai e retomo o choro.

15h00min - sinto raiva da Bel. É a primeira vez que identifico esse sentimento por ela com tamanha clareza em mim. Como é que ela não foi ver isso antes, aquela tonta? Como assim, ela deixou para ver o passaporte na última hora? Pois ela não ouviu que sonhei repetidas vezes que eu esquecia o passaporte em casa no dia da viagem?

15h30min - começo, lentamente, a me lembrar de algumas coisas. 1) A Bel não é caipira que nem eu, que acha até a comida do avião o máximo (ok, ela se diverte com a comida do avião tanto quanto eu, mas isso não faz dela uma caipira). O passaporte, para ela, é mais ou menos como o RG para mim: não carrego na bolsa porque uso a carteira de motorista, mas sei que ele está lá, na gaveta dele, com aquela foto horrenda a olhar para mim toda vez que olho para ela. A Bel costuma viajar para o exterior todos os anos, às vezes mais de uma vez por ano. E o passaporte dela sempre esteve lá, naquela mesma gaveta, olhando para ela com uma foto provavelmente um pouco menos horrenda do que a exibida no meu RG. 2) A Bel é a pessoa mais obsessivamente organizada que conheço. Se fosse comigo, que só neste mês perdi uma calcinha, um batom e quase que perco também um cartão de crédito (no fim, estava com a minha avó, louvado seja o Senhor), perder o passaporte seria absolutamente esperado. Mas a Bel??!? Vejam bem, a Bel é aquela pessoa que, nas aulas ruins a que assistíamos juntas, anotava no caderno todos os slides que o professor projetava, mesmo sabendo que o conteúdo deles estaria disponível no xerox depois. Ou seja: ela não deixa passar nada. Foi com ela, aliás, que aprendi a "fazer um caderno" - mas isso já é assunto para outro post.

16h - interrompo definitivamente o choro e dou início a um processo vegetativo. Ligo a televisão e está passando o homem que quebrou o recorde mundial de velocidade de quebramento de ovos. Não mudo de canal.

16h30min - passada a raiva porém restando a tristeza, ligo para a casa da Bel, falo com ela e o Marco. Os diálogos que se seguem podem ser sintetizados em uma palavra e um sinal de pontuação: poxa...

17h - chego a outro salão (são quatro ao todo em minha vida) para fazer limpeza de pele. Não tenho coragem de contar para a esteticista, amiga da família, o que está acontecendo. Ela não percebe e põe-se a relatar animadamente a história da vida de seus três filhos. Fico grata por isso.

18h30min - chego à padaria para tomar um suco (até então, o dia fora passado à base de duas torradas integrais). Ligo para a Bel de novo. Estamos com a voz um pouco melhor.

20h30min - leio um e-mail fofo da Mari e começo pensar nessa história toda em termos de adiamento e não mais cancelamento, o que me permite sentir um pouco de fome.

21h - vou com meu pai ao America e peço um Minuano seguido de um Frozen Tiramisù. Mas não consigo comer nenhum dos dois até o fim.

22h30min - cogito uma recaída. Formulo o e-mail mentalmente. Também mentalmente, praguejo um xingamento contra minha idéia fraca e vou dormir.

23h - já na cama, meu corpo entende que passei o dia inteiro na academia. Dóem os braços, as pernas, as costas e o canto de uma unha, cuja cutícula destruí.

23h-9h30min - acordo e durmo diversas vezes. Tenho um pesadelo no qual fui viajar com a família da Bel, eles estão no quarto ao lado do meu e quando vou ver eles não estão mais lá: no lugar deles, um fantasma horrível. Acordo gritando pela Bel. Durmo de novo e acordo com uma coceira desesperada nas pernas. Tento escrever no blog e não consigo. Acabo lendo sobre as primárias do partido democrata. Começo enfim a ler A Falta Que Você Me Faz, de Joyce Carol Oates. Me envolvo e me acalmo. Consigo voltar a dormir.

9h30min - quando eu mais tinha certeza de que o passaporte da Bel já estava nas mãos de Jive Miguel, ela me liga dizendo que Super Marco o havia encontrado.

***

A partir daí, só precisamos: 1) remarcar a viagem para 13/03, o que implica passarmos nossos (3) aniversários lá, vermos o Central Park na primavera e economizarmos U$1000 na passagem; 2) passar a tarde toda na piscina e o começo da noite vendo Seinfeld.

Mais reflexões sobre o final feliz amanhã.

Marcadores:

Postar um comentário

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

I've got the apple of temptation and a diamond snake around my arm

Ontem Bel e eu demo-nos conta, histéricas, de que iríamos patinar no gelo. Ou melhor - ela vai patinar, e eu vou me esforçar muito para não cair (mais um evento para a série dos "não fui": além do Hopi Hari, também nunca fui ao Holiday on Ice). E eis que nos deparamos, no site do Central Park, com os dois rinks de patinação disponíveis, um dos quais é nada menos que o Wollman Rink.

Foi um desses momentos que chamo de Joni-revelation. O último a acontecer antes de ontem deu-se muitos anos atrás, quando em uma estrada qualquer da Califórnia (ou da Flórida, já não lembro mais), passamos pelo supermercado Winn-Dixie, que até então eu não fazia a menor idéia do que era. Imediatamente soltei um grito:

- Winn-Dixie cold-cuts and highway hand me downs!

Meu acompanhante na ocasião abriu um sorriso maior do que o rosto e calmamente retrucou:

- Joni Mitchell, right?

Sim, porque homem que é homem presta atenção nas letras da Joni Mitchell, por mais que diga o contrário.

Reação semelhante à da California/Flórida eu tive ontem, em São Paulo mesmo. A Bel é testemunha:

- Wollman rink! Joni Mitchell! Joni Mitchell! Now there are 29 skaters on Wollman Rink circling in singles and in pairs!

É curiosa esta sensação de perceber no mundo compartilhado a existência de algo que se julgava só seu - um lugar que só existia naquele universo Joni-Sharon-Golden Reggie, e que obviamente é próprio dali, mas encontra um correspondente neste nosso mundo de carne, osso e concreto, tantas vezes tão menos concreto do que os mundos que a Joni cria.

Com isso lembrei-me de que, salvo engano meu, esta é a música da Joni cuja letra mais faz referências a NY. Resolvi então colocá-la aqui - é só apertar o play ali em cima - para que o blog também fique um pouco em NY enquanto eu estiver ausente.

Marcadores:

Postar um comentário

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O primeiro dia

O primeiro dia deste ano tinha tudo para ser melhor do que o primeiro dia do ano passado, e por pouco não foi. Melhor. Lembro-me de bons primeiros dias de anos passados: aquele que passei com meu irmão virtual - hoje mais para primo de terceiro grau - em Santos; aquele em que minha-melhor-amiga-além-da-Bel - hoje mais para prima de quarto grau - me ligou preocupada com minha saúde psíquica, então estável devido ao recebimento de um e-mail tão reconfortante quanto despudoradamente falso; aquele que passei rodando a cidade inteira com o Lima - hoje, pelo menos ele, ainda Lima - atrás de um restaurante para almoçarmos, às cinco da tarde, parando enfim naquela churrascaria honesta da Rebouças.

Mas o primeiro dia do ano passado, embora - como tudo na vida - sempre podendo ter sido pior, ainda não encontrou concorrente como o primeiro dia mais deprê da história. E olha que todo primeiro dia do ano, por definição, é deprê - mesmo os bons são inevitavelmente carregados daquele sentimento de que o ano novo mal começou e você já está atrasado; o ano novo começou e você ainda não se matriculou na academia, não se inscreveu como voluntário no orfanato do seu bairro e não encontrou o amor da sua vida. No ano passado, essas três certezas fizeram-se especialmente evidentes; o tempo, então, era o meu bem mais precioso, e não só não me matriculei em academia ou orfanato nenhum como marquei um atendimento para o fim daquela tarde - não porque o paciente estivesse desesperadamente precisando, mas porque eu não teria condições de remarcá-lo para outro dia, preferindo assim atender logo no primeiro dia e "me livrar duma vez". Mas me livrar do quê?

Da minha vida, por supuesto. Tudo estava no lugar errado: eu odiava meu trabalho, o namoro havia se convertido numa instituição pro-forma (a terceira certeza que se adensava), eu estava distante das pessoas que mais amava - e, como que para não deixar dúvida de que as coisas simplesmente não se encaixavam, eu estava magra pelos motivos errados. Eu estava cansada, feia e profundamente infeliz. Talvez o mais sombrio nisso tudo seja a lembrança de que não é que não havia nenhuma perspectiva de melhora ou felicidade para mim - havia, claramente, eu só não conseguia vê-la. E talvez seja nisto que consista a verdadeira falta de perspectiva.

Era esse o pano de fundo sobre o qual destacaram-se os seguintes - poucos - eventos: oito horas no carro para voltar para São Paulo; um atendimento de cujos detalhes não me lembro, mas que com certeza não foi fácil, pois até hoje não me lembro de nenhum atendimento desse tipo como tendo sido algo menos que muito difícil; uma noite que passei sozinha, embora fisicamente acompanhada, quando tudo o que eu mais queria e precisava era de um colo, eu que adoro colos. Mas ninguém estava aqui.

Ninguém estava ali, porque eu não estava tão ruim assim. Acho que era o Hume - ou algum outro empirista inglês, as aulas de filosofia agora me faltam - quem dizia que a percepção sensorial presentificada comporta traços muito mais vívidos e fortes do que jamais poderão ser os traços mnêmicos, para sempre destinados a constituir na mente uma cópia imperfeita da percepção sensorial.

É mentira. Isso só se aplica àquilo que não importa - por exemplo, minha lembrança já esvaída do nome do filósofo - o resto, a memória realça ou apaga, torce e retorce como lhe convém, sem o menor respeito pelas leis de uma filosofia da consciência. Foi apenas com a ajuda da memória que, recentemente - ontem mesmo - , pude me dar conta da dimensão do meu sofrimento no começo daquele ano, que agora já parece ter acontecido quinze anos atrás.

Oito horas de trânsito. Eu estava no carro com três pessoas ótimas - uma das quais espero, inclusive, que permaneça em minha vida por muito tempo -: o problema é que ainda está para nascer um ser humano cuja companhia me seja prazerosa ao longo de oito horas dentro de um carro, no trânsito. Eu digo que está para nascer, porque mesmo se minha mãe ressuscitasse ou se o homem da minha vida aparecesse montado num cavalo branco - ou, o que parece muito mais razoável, numa escova de dentes velha, para não falar em outro apetrecho ainda mais significativo - eu dispensaria de bom grado a companhia. Ninguém, e muito menos eu mesma, é companhia agradável para mim ao longo de oito horas consecutivas de trânsito.

Em oito horas consecutivas de trânsito, um fenômeno curioso começa a tomar forma: acredito piamente na existência do tal túnel do final da vida, porque sei que existe o túnel do meio do trânsito. Quando em meio ao mais tenebroso trânsito, toda a sua vida passa a ser ressignificada em função daqueles momentos - sim, não são horas, pois no trânsito o tempo é composto por uma sucessão absolutamente sem sentido de momentos - da mais inescapável imobilidade. Mas não a sua vida passada, como sói acontecer à hora da morte, e sim a vida futura: imagino-me casando, tendo filhos, criando-os, mandando-os para a faculdade - tudo sem sair de dentro do carro.

Este ano? Passei meras duas horas dentro de um carro, sem trânsito nenhum, podendo apreciar inteiramente a companhia de três das cinco (se eu fosse honesta, precisaria dizer seis) pessoas que amo com todas as forças. Cheguei em casa e fiz coisas fantásticas que relatarei em posts subseqüentes.

Mas aí, a crise - e que crise é esta, só a Bel e a minha ex-analista sabem - ela, que me acomete de quando em quando, me tomou. Com uma força que destruiu o pouco que sobrou de minhas unhas depois das leituras angustiantes do final do ano. Que devorou horas e horas do precioso tempo de que disponho neste planeta - horas passadas na mais completa solidão, considerando que o onipresente Sr. Google não conta como companhia. Que quase destruiu por completo o primeiro dia do ano.

Depois de algumas horas, não é que a crise passou, propriamente - eu é que passei dela, e fui fazer outra coisa. Ela ainda está aqui, perto, bem perto da superfície, se cutucar de levinho ela aflora novamente. Mas o bom é que só depende de mim cutucá-la, e agora já não quero mais - o fim de ano já passou, hoje já é dia útil e não tem mais por que me deixar levar por sentimentalismos tão verdadeiros quanto inúteis.

Ontem suspirei resignada ao perceber, mais uma vez, o quanto estou longe, ainda muito longe de conseguir colocar um fim a essas crises.

Mas pela primeira vez percebi que essa distância, grande como ela é, não é maior do que a distância existente entre o ponto atual e o ponto de partida, quando a crise nem era vista como tal mas constituía a própria essência de minha mesquinha existência, ocupando boa parte do espaço psíquico e sugando quantias razoáveis da energia mental - conceitos abstratos apenas até serem preenchidos por aquela substância viscosa e densa de que Jacob deve ser feito - de que eu dispunha para sobreviver as vinte e quatro horas do meu dia. Se essa trajetória fosse linear, eu já teria passado da metade do caminho. O iceberg já derreteu.

Como não é, preciso continuar me cuidando. O familiar de um paciente, dependente químico abstinente há muitos anos (o familiar, não o paciente), disse certa vez uma coisa que ficou perdida em meio a tantos outros assuntos que precisávamos pôr em pauta na reunião, mas que não se perdeu em minha memória.

A coisa:

"Eu posso fazer uma série de coisas. Eu posso até me separar - eu só não posso usar droga."

Aproveitando para oferecer o meu voto à enquete que se encerrou há pouco, foi esta certamente a minha maior não-realização de 2007: eu não usei drogas. Ou melhor: eu não usei a minha droga, a mim muito mais nociva que qualquer composto químico que traficantes possam vir a inventar.

E foi a partir desta não-realização que tantas - vá lá, não foram tantas assim, mas foram algumas, sem dúvida - realizações foram possíveis. Entre elas, este blog.

Em 2008, desejo para mim mesma, para os que tiveram paciência de ler até aqui e também para aqueles que abondanaram a leitura no primeiro parágrafo, que possamos acima de tudo realizar a façanha de uma não-realização como esta: uma não-realização que abra espaço na mente e no corpo como facões pela mata - facões que abram passagem para algo um pouco mais humano.

Marcadores:

Postar um comentário

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Coisas que eu achava que aconteceriam quando eu virasse adulta

1. Eu sempre teria um guarda-chuva na bolsa.

2. Eu sempre teria uma folha de zona azul no carro.

3. Eu sempre teria leite, pães, frutas, queijos e iogurtes em casa para o café da manhã.

4. Eu sempre tomaria café da manhã.

5. Eu sempre estaria bem arrumada e de unhas feitas.

6. Eu sempre passaria creme hidratante no corpo ao me levantar.

7. Eu sempre pagaria todas as contas em dia.

8. Eu sempre ligaria para os amigos nos aniversários.

9. Minhas gavetas estariam eternamente organizadas.

10. Meu guarda-roupa idem.

11. Meus pensamentos também.

12. Eu nunca me sentiria aliviada quando um paciente difícil faltasse à sessão.

Marcadores:

Postar um comentário

domingo, 2 de dezembro de 2007

Outra experiência antropológica: o salão de beleza

Dez anos de observação participante semanal em salões de beleza os mais variados constituem a principal fonte de informações para o estudo etnográfico que apresentamos a seguir, visando a descrição minuciosa dos tipos complexos que compõem a população prestadora de serviços destes estabelecimentos. Foge ao escopo do presente trabalho investigar a população consumidora destes serviços - qual seja, a clientela -, questão que pretendemos abordar no doutorado.

(Ou, se preferir, leia este texto como se fosse um teste de personalidade: que tipo de profissional da beleza você é?)

***

O cabeleireiro gay que se faz de hetero. De maneiras exageradamente contidas e sempre dando um jeito de encaixar a palavra "esposa" em qualquer assunto que se apresente, este cabeleireiro entrega a real natureza de seus sentimentos luxuriosos ao não reparar no decote da gostosa que acaba de adentrar o salão.

O cabeleireiro hetero que se faz de gay, isto é, fala alto, mexe bastante os braços e usa os adjetivos "fofa" e "bonita" como substantivos. Para ele, isso é o que basta para ser considerado homossexual pela maioria das clientes - e, portanto, dotado de um senso fashion superior ao restante da humanidade.

O cabeleireiro que se faz de cantor sertanejo. De preferências sexuais abstrusas, este cabeleireiro vê a profissão apenas como a plataforma que o alçará ao estrelato. Sendo assim, passa o dia ensaiando a performance que o levará ao Big Brother ou praticando o falsete que o levará à dupla sertaneja cujo segundo integrante acaba de falecer, que Deus o tenha.

O ajudante adolescente que se faz de moderno. Seus cabelos são uma instalação de arte pós-moderna; seu rosto, uma profusão de perfurações causadas pela acne ou por brincos e pinos diversos. A observadora-participante a princípio não dá nada por ele - até que ele lhe conduz ao lavatório e começa a massagear a sua cabeça. A experiência é tão, hmm, participante que depois de dez minutos a observadora começa a cogitar pedi-lo em namoro - momento no qual a massagem acaba, o adolescente sai de trás do lavatório e a observadora volta à dura realidade da sua pesquisa antropológica.

A manicure que se faz de safada. Vestindo sempre dois números a menos do que lhe seria cabível, a manicure que se faz de safada dispara uma média de dois comentários por minuto com referências sexuais tão sutis quanto os comerciais das Casas Bahia. "Você viu o tamanho do pé do (nome do cliente)?" e "Hoje eu estou necessitada!" estão entre as mais comuns.

A manicure que se faz de santa. Mãe e avó, faz frango com macarronada para a família aos domingos e é a única em todo o salão que responde aos comentários da manicure safada. Para tal, geralmente recorre aos clássicos "pára, Fulana!" e "ai, não sei do que você está falando!".

A manicure que se faz de superior. Mantém-se alheia às conversinhas fúteis entre as manicures safada e santa, buscando, ao invés disso, discutir literatura espírita com as clientes. Acha a injustiça social um absurdo e é eleitora fiel do Maluf.

A recepcionista desinformada que se faz de informada. A recepcionista desinformada invariavelmente anota o nome da observadora, cliente de meia década da manicure Maria, na agenda da cabeleireira Mara. Não contente, lá de vez em quando tenta convencer a observadora de que seu sobrenome na verdade se escreve com um L só, pois é óbvio que ela jamais o anotaria de maneira incorreta.

A cabeleireira que se faz de psicóloga, isto é, ouve três frases a respeito da vida da observadora e faz questão de compartilhar sua grande experiência de vida e vasta sabedoria com conselhos e lições que vão desde a flutuação do mercado financeiro à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Freqüentemente entende também de astrologia. Com tantos conhecimentos, sempre tem muito a dizer; costuma ser bem menos requisitada do que o ajudante adolescente.

A cabeleireira (que se faz de?) grávida. Todo salão de beleza possui : a) uma cabeleireira grávida; ou b) uma cabeleireira que está de licença porque está grávida; ou c) uma cabeleireira que acabou de voltar da licença por ter estado grávida; ou d) uma cabeleireira que está morrendo de medo de descobrir que está grávida. Qualquer que seja o caso, todo o salão se mobiliza em função da gravidez do trimestre - sim, pois a cada trimestre a grávida do salão precisa ser renovada.

Marcadores:

Postar um comentário

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Um amor construído

Esta semana recebi uma ligação que me pôs para pensar:

"Ouvi uma música da Joni, lembrei de você".

Como explicar o impacto emocional que isso provoca em alguém que, até então, só ouvira um tipo de associação com o próprio nome: "ouvi uma música do Pat, lembrei de você"?

Mais e mais pessoas ouvem Maria Schneider, Keith Jarrett, Brad Mehldau e lembram-se de mim. Mas, com a Joni Mitchell, essa associação é especialmente inusitada - pois, de início, ela era apenas uma cantora que tivera a honra de tocar com o Pat; eu não depositava qualquer interesse nela que não fosse motivado pela participação do Pat em seu disco; o disco era um mero suporte através do qual eu teria nova chance de ouvir o Pat.

Só que havia um detalhe: Shadows & Light, o disco e o vídeo, não era apenas mais um show com a participação do Pat. Ali, tínhamos o Pat na companhia do Lyle, fora do contexto Pat Metheny Group (!!!), numa formação muito mais próxima daquela tradicionalmente associada ao jazz, com um saxofone à frente, com o saxofonista sendo ninguém menos que o Michael Brecker. E, se isso já seria instigante o suficiente, bota aí mais algumas ampolas de adrenalina no meu sistema nervoso: esse era também o único registro oficial em vídeo do Pat com o Jaco, pouco após terem gravado Bright Size Life; e era também a primeira vez que eu veria o Jaco tocando.

Entendam: era muito estímulo para mim. Tanto, que lembro nitidamente desta sensação ao assistir a Shadows & Light pela primeira vez: uma irritação profunda com a dona da gig. Eu queria mais era que aquela tiazinha calasse a boca e deixasse a banda tocar. E que músicas eram aquelas?? O que eles estavam fazendo que não tocavam Bright Size Life, Three Views of a Secret?...

E foi assim que nasceu uma paixão estética tão fundamental - em seu sentido mais preciso de fundamento, base, sustentação do ser - quanto as que eu vinha cultivando até então (Pat, Lyle, Jaco, Jobim).

Isso, de início, se deu aos poucos. Começou por In France They Kiss On Main Street, por causa do solo do Pat, que citava Phase Dance ("até que enfim, uma música que vale a pena nesse show!"). Continuou, curiosamente (porque nesta o Pat só fingia que tocava), por Goodbye Pork Pie Hat, cuja melodia imediatamente eu soube que haveria de memorizar - bem como, aliás, o solo do Brecker. E foi mais ou menos isso.

Depois, não sei como, conheci Help Me, sua música mais deliciosamente pop, daquelas que não tem como não sair cantando junto já na volta do A, depois de um B com dois versos que afinal me fizeram ver que talvez eu devesse começar a prestar atenção nas letras dela: "didn't it feel good, we were sitting there talking - or lying there not talking".

Até aí, porém, eu apenas havia deixado de desejar que a tiazinha fosse abduzida pela nave da Xuxa no meio do show, passando a considerá-la uma cantora pop competente.

Hoje, me é MUITO LOUCO perceber o quanto eu estava fechada, na época - eu tinha uns 17 anos, então -, para qualquer experiência musical que extrapolasse minimamente o universo Pat Metheny - apenas a música da Joni mais obviamente destinada ao sucesso, a mais inescapável, a mais acessível, conseguiu me atingir. Os versos que inicialmente me capturaram são o melhor exemplo disso: a cuidadosa construção imagética erguida em Goodbye Pork Pie Hat era por demais complexa e estranha para que eu me aventurasse a mergulhar nela; ative-me ao conforto de versos lindinhos e sugestivos. Gostei de Pork Pie Hat - e também de In France - apesar e não por causa da Joni Mitchell.

Felizmente, porém, Help Me foi o que bastou para fisgar minha alma e levar-me a ir atrás de mais. Help Me, pensando agora, fez com que eu ajudasse a mim mesma. A partir desta canção, conheci Hejira, o disco. E então...

(To be continued.)

Marcadores: