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Os jesuítas e eu
Eu realmente não sei se estou desiludida ou esperançosa, e isso com relação a umas três situações diferentes. É o estado mental mais difícil de manter: o reconhecimento e a entrega ao não-saber. Não ter pressa de definir o que estou querendo, nem querer entender precipitadamente o que se passa com o mundo, os bichos, os outros. Vou parar antes que o texto fique falsamente poético ou descaradamente misterioso. E vou partir para um exemplo que vai deixar tudo muito mais concreto, do jeito que eu gosto que a vida e as relações sejam.
Numa aula, já faz um tempo, um aluno fez uma pergunta excelente ao professor: quando é que a catequisação dos índios na América terminou? Quando se considera, historicamente, que a fúria evangelizadora chegou ao fim?
A resposta ultrapassou a pergunta e bateu direto em alguma tópica psíquica minha que ainda não consegui identificar - pré-consciente ou superego, não sei.
A resposta: não terminou.
Em nenhum momento os jesuítas ou what-have-you consideraram que os índios já estavam bons de evangelho - em nenhum momento pensaram que, catequisação?, ok, já deu, that's enough.
O processo de conversão jamais chega ao fim. Continua até hoje.
Meu coração até descompassou.
Porque além do terror evidente de trazer alguém para as próprias hostes à força (ou na base da lábia, que também é força), há ainda o terror adicional de perceber que isso é uma tarefa que não pode mesmo acabar. O que, aliás, é um bom sinal: de que a resistência existe e de que uma assimilação completa do outro é inviável.
Que vida amaldiçoada levam os jesuítas e afins, que não sabem a hora de parar de investir.
Eu também não sei, mas quero crer-me um pouquinho menos amaldiçoada do que eles. Porque demora, mas uma hora eu paro.
E enquanto não paro de vez, suspendo o investimento a um limbo inalcançável até mesmo por mim.
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Ao polvo voltaremos
Então a aula de poesia do Siglo de Oro chegou ao Barroco, com tudo o que isso implica: a saber, homens angustiados com o inevitável envelhecimento de mulheres gostosas. E dá-lhe transitoriedade da vida e carpe diem na cabeça - afinal, do pó viemos e ao pó voltaremos.
Acontece que a aula de poesia, assim como todas as outras, é em espanhol. E pó em espanhol é polvo.
Sempre que começa essa conversa de pó, visualizo vários polvinhos em festa no fundo do mar, sacudindo suas barbatanas (ai, a tia bióloga que me corrija se não for isso) e comemorando a chegada de mais um morto.
(Imagem: www.garycmartin.com/octopus_setup.html)
Na boa, é uma imagem terrível. Melhor seria se vocês não tivessem lido este post.
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Um pesadelo hiper-realista
Esta noite visitou-me enfim o primeiro pesadelo realmente apavorante que tive em New Orleans.
Em alguns sonhos, mantemos um resquício de consciência: parece que, em alguns momentos, visita-nos a dúvida sobre a materialidade do que estamos vivendo.
Em outros, qualquer princípio de dúvida está soterrado: vivemos o sonho e o sonho é o universo, o sonho é o mundo.
Meu pesadelo recente não foi nem de um tipo nem de outro.
Foi daqueles que indica que existe algo de muito grave acontecendo na sua vida - e que, óbvio, detona completamente com ela - e que você, quando acordada, não sabia. Ou seja: este é um sonho que fala para mais-além da vida. Zomba da sua realidade, faz pouco dela: então você achava que está tudo bem, que está tudo muito bem encaminhado no seu cotidiano lindinho? Nada, tolinha: tá aqui, ó, veja o tamanho da ferida que existe no seu corpo.
A vantagem desse tipo de pesadelo é semelhante à do vômito: uma vez terminado, o alívio não poderia ser maior.
Mas o que mais me aliviou, desta vez, não foi nem o alívio de ter acordado.
Foi o alívio de pensar que, há alguns anos, eu cultivava esta ferida - e teria acordado frustrada ao perceber que ela efetivamente não existe mais sobre a minha pele.
Hoje pesadelei - vomitei - e fiquei bem.
É muito bom quando os pesadelos podem mudar.
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Tomé e Narciso, meus dois amigos
Efeitos psíquicos não-previstos de um furacão que passou em minha vida e meu coração se deixou levar:
1) A descoberta de que São Tomé era um cara esperto.
Então o furacão passou e todos são unânimes em dizer que os estragos foram mínimos - casas destelhadas aqui, vidraças quebradas ali, a eletricidade que ainda não voltou. Como diria o
Mauro - right. Realmente isso não é nada, para um furacão. E enquanto o furacão passava, eu estava aqui
me apaixonando pelo meu sobrinho. O plano perfeito, por supuesto*.
Só que eu nunca voltei para casa de um feriado prolongado sem saber se iria encontrar meu quarto seco ou molhado. E agora ele bem pode estar molhadão. O que não é nada perto do que poderia ter acontecido, repito - e chega de repetir que todo mundo já entendeu que minhas preocupações e reclamações agora estão em outro nível de seriedade e periculosidade.
Em suma: está tudo ótimo, não estou reclamando de nada, mas só vou ficar tranqüila mesmo a hora em que eu botar os olhos na minha casinha. E no meu departamentozinho. E na minha lanchonete vizinha.
E olha que nunca dei valor para essas coisas de olho. Reparo em sons, texturas e movimentos - não sei nada de cores e formas. Aliás, por isso até que nunca consegui gostar tanto de Merleau-Ponty quanto eu acho que poderia. Porque esse blá de que as artes plásticas são a forma mais primordial, sensacional e suprema de arte me soa absolutamente psicologista. O cara que gosta de palavras se arma da maior teoria para comprovar que a poesia é a arte mais fantástica de todas; o que gosta de sons constrói cento e um argumentos defendendo que a música é superior a tudo; o que prefere o cuspe à distância decide que a propulsão de fluidos orais bate todas as demais artes e ofícios humanos. Nada até hoje conseguiu me convencer de que qualquer uma dessas teorias não está solidamente embasada no mais raso dos psicologismos. Como o psicologismo é raso, o embasamento não se sustenta. E eu perco o interesse.
Isto posto, hoje gosto um pouquinho mais de Merleau-Ponty e de todos aqueles que valorizam o olho. Psicologismo, é claro: pois hoje só o que me importa é ver o que ainda tenho. Uma casa, uma universidade, uma cidade. De preferência, secas e envidraçadas.
2) Narciso não era nada nem ninguém sem aquele lago.
Poucas vezes abri minha caixa de e-mails com tanta ansiedade; nunca li comentários deixados no blog com tanto carinho (gosto dessa ambigüidade). Narciso é muito mal-compreendido, o infeliz. Da forma como o entendo - e me identifico bastante com ele -, não é que ele se achava um fodão que preferia sua própria imagem à companhia alheia. Nem tampouco tinha a opção de se afastar do lago e ir fazer outra coisa. Simplesmente, se Narciso não se visse refletido no olhar de um outro - nem grande nem pequeno, por favor: um outro que para ele era um lago -, Narciso não era. A própria existência do moço dependia do olhar constante e reassegurador de um outro.
Assim foi a minha vida nos últimos dois ou três dias. Nunca alguns silêncios me doeram tanto; nunca, principal e felizmente, algumas palavras me fizeram sentir tão reconfortada (como pode ser facilmente conferido nas minhas respostas aos comentários-furacão aqui no blog).
Faz sentido, eu acho. Quando você está sob ameaça - pequena, mas real - de perder substratos materiais tão básicos à sua identidade, você começa a achar que os não-materiais estão ameaçados também. E quando aparece alguém para te lembrar de que você continua sendo você mesma, mesmo que a sua casa desapareça ou reapareça toda molhada - só posso ficar muito agradecida mesmo.
Eu esqueço quando é o aniversário das pessoas; esqueço seus nomes e os nomes de seus parentes; esqueço principalmente os rostos de todo mundo (é justamente aí que Merleau-Ponty me perde).
Mas não costumo esquecer a solidariedade.
Gracias a los que se importaron**.
* Gente, desculpa aí. Mas se eu não começar a inserir breguetinhos em espanhol nos meus textos desde já, o mundo e a vida serão muito mais ameaçadores ao final do semestre, quando eu precisar escrever um breguetão inteiro sem nada de português, inglês ou mesmo francês para remediar. Entonces you'll have to put up with me for now, por favor. Merci.
** Tá muito errado isso? Too lazy to check. Marcadores: repetir elaborar
Vaziozinho
Então acabou. Não há mais nada de muito urgente para limpar, desinfetar, arrumar. Não há mais roupas para passar e guardar. Respondi os e-mails, os comentários do blog.
Quer dizer. Coisas a fazer, sempre as há. Tenho compras a devolver no Wal-Mart e na Bed Bath & Beyond; o fogão ainda não limpamos; ainda quero aspirar as escadas. Nenhuma delas, bem se vê, coisas sem as quais não se pode viver.
Mas o mais estranho não é isso. É pensar que hoje é sábado, e não almocei na Bel. Não irei à Benedito Calixto e nem tampouco encontrarei algum bachelor mais tarde. Não que estes fossem programas repetidos todo sábado, longe disso. Mas, em geral, estas eram atividades que me estavam dadas, disponíveis. E agora não.
Para ajudar, hoje é aniversário do meu pai, e ainda não consegui falar com ele. E é justo ele a pessoa que mais tenho medo de que me esqueça aqui. É aquela coisa: minha mãe morreu, mas a sensação que habita algum canto do meu corpo (e que Amós Oz, mais do que Freud, explica) é de que ela, na verdade, me abandonou, porque se encheu de mim. Porque eu não valia a pena. Foi fazer coisa melhor da vida. Quem diz que o meu pai não vai fazer a mesma coisa?
Tudo bobagem, eu sei. Bobagens que tomam conta quando há pessoas queridas no messenger e no skype - e nenhuma por perto.
Claro que a Isabel é a roomate que qualquer um pediu a Deus (também, com esse nome). E claro que isso não adianta.
Não preciso ser propriamente espírita para prever que semana que vem estarei novamente preenchida por quilos de livros a estudar e toneladas de livros a decifrar. Sim, porque os de português eu até posso estudar; já os de espanhol...
Bom. Ajuda saber que eu sabia que esse momento havia de chegar.
Então vou lá arrumar a cozinha e ler
uma história de amor e terror, que sair da própria vida é o melhor remédio.
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Estou aqui, um pouco bem e um pouco aflita, estou com fome, estou feliz
E já começo com uma desistência, que sou brasileira e desisto sempre. No caso, de contar tudo o que aconteceu - a chegada, a busca por uma casa, a umidade que gruda na pele, a saga da troca de casa, a mala perdida, a melhor cole slaw da história, a mala reencontrada, a Bel o tempo todo, a Bel indo embora, as saudades no estômago, o Nextel a mil, a matrícula sendo feita.
Passo, então, ao que se passa agora.
1) Estou aqui.
Há dez dias, eu não sabia de nada. Onde e com quem iria morar, em que cama dormir, que vizinhos cumprimentar, em que restaurante almoçar.
Hoje tenho o maior alívio e orgulho de dizer que estou instalada neste quartinho aqui:


Com esta pessoa aqui:

Está aberta a temporada de adivinhações: como se chama minha querida roomate? A única pista é: o nome dela é a maior coincidência das galáxias. E mais não digo.
Mais fotos seguirão em breve, que a maioria está na câmera da Bel.
2) Um pouco bem, um pouco aflita.
Estou lenta. Um pouco pelo calor, um pouco pelo desconhecimento; tarefas banais, como tomar banho, por exemplo, são agora ressignificadas: tenho de me abaixar para pegar o xampu; ainda não me acostumei à cortina no lugar do box de vidro; às vezes me perco na ordem dos cremes a passar. A vida fica confusa sem uma rotina - nem que seja a rotina do banho.
Estou cansada, mas quase não percebo.
A partida da Bel foi bem difícil.
Da minha família também. Mas, enquanto eu me despedia do meu pai, da minha avó e das minhas tias, ela estava comigo.
Quando me despedi dela, não havia ninguém ao meu lado.
Mas eu consegui. Eu fiz um plano. Criei uma rotina. Nos minutos que antecederam a partida dela, eu só conseguia - eu só podia - repetir para mim mesma: comprar hidratante, pegar táxi; hidratante, táxi. E assim eu fiz. Comprei um hidratante novo, vim de táxi para casa e terminei a faxina do banheiro em homenagem a ela.
Fiquei bem.
3) Estou com fome
Tirando as despedidas, hoje enfrentei o maior desafio da viagem inteira.
Antes disso, tive também um dos momentos mais felizes: finalmente terminei de arrumar o meu quarto, do jeito que eu queria, e fiquei imaginando o que minha família e a Bel vão achar dele. Eles eu não sei, mas eu adorei e, principalmente, já me apropriei totalmente. Outras partes da casa ainda estão por ser desbravadas e conquistadas. Mas o quarto é meu.
Há pouco, enquanto eu arrumava os últimos detalhes, pregando um calendário na parede, lembrei-me de que há poucos meses pedi para o meu pai fazer isso por mim, no meu ex-quarto de São Paulo. "Pregar um troço na parede, como assim", foi meu pensamento na época. Nem cogitei a possibilidade de fazê-lo sozinha.
Hoje, nem cogitei a possibilidade de não fazê-lo, tão simples a atividade me pareceu.
Tantas outras coisas das quais eu me julgava incapaz... E não é que eu não era. Estou aqui e estou bem. Numa casa que até sexta ou sábado estará perto dos eternamente inatingíveis cem por cento. Planejando o piquenique comemorativo do fim de semana que vem. Vibrando a cada chamada da minha família e a cada e-mail da Bel.
Retomando o blog.
(Ah, sim, o computador é novo, e está reluzindo ao brilho da minha baba.)
Mas antes, eu dizia que estava com fome.
Pois é, estou com muita fome.
O plano era, depois de arrumar o meu quarto, comer alguma coisa, limpar o último armário que faltava na cozinha e lavar e guardar os copos e taças que compramos hoje.
Tudo muito razoável, portanto.
Todavia, eis que.
(Parênteses para contar o que aconteceu ontem.)
Ontem mi querida y destemida roomate (ella es uruguaya) matou uma barata na cozinha.
Felizmente não presenciei esta cena de horror.
Hoje pedimos para a casa ser dedetizada.
Beleza. O Omar veio aqui hoje à tarde e mandou ver no spray na casa toda. Inclusive, a aranha de um centímetro de diâmetro que morava no meu quarto morreu pouco tempo depois. Achei ótimo.
Acabada a arrumação do meu quarto, portanto, desci para pôr em prática o plano cozinha.
Quando de repente.
Não era uma aranhinha de um centímetro de diâmetro que eu encontrei morta na cozinha.
Sim, era o que vocês estão pensando.
Mind you - a roomate saiu e não chegou ainda.
Naturalmente, a coisa mais razoável a ser feita seria jogar a barata fora, desinfetar o local que abrigou os últimos suspiros da pobre e continuar com o plano.
Só que... Então.
Eu até consegui pregar um calendário na parede.
Aliás, eu consegui, com a ajuda da Bel, montar uma escrivaninha e um criado-mudo. Podem me perguntar o que for sobre parafusos, pregos, chaves de fenda, que vou saber responder.
Consegui tantas coisas que vocês não fazem idéia.
Mas lidar com barata?
Aí não.
Em suma: ela ainda estava agonizante. Depois de uma hora ao telefone com minha tia - que foi acompanhando o processo todo e mostrou-se a melhor AT que jamais existiu -, e de duas tentativas mal sucedidas de resolução do problema - nas quais me aproximei da cozinha, olhei para a barata e fugi chorando sem qualquer esboço de reação prática -, consegui jogar litros de veneno em cima da barata e cobri-la com várias camadas de papel higiênico. Depois, subi correndo para o meu quarto e daqui não saí mais (ah é: meu quarto fica no segundo andar de uma casinha fofa).
Então a vida tem sido assim: tenho me surpreendido com coisas das quais não sabia ser capaz, e fico bem orgulhosa de mim mesma. Por outro lado, muitas vezes ainda fico achando que é pouco. Então o esforço é no sentido de não perder a perspectiva: não perder de vista que o que fiz hoje foi um feito histórico na minha vida, um passo digno de homem que chega à Lua.
Porque, se não for assim... Não vale a pena pensar em termos comparativos. Se eu pensar que minha grande realização da semana foi jogar veneno sobre uma barata, enquanto Michael Phelps no mesmo período ganhou oito medalhas de ouro numa Olimpíada... Bem, mais vale pensar que há dez dias eu não tinha nada, e hoje estou até matando barata na minha casinha. Se isso não for motivo de orgulho, não sei o que é.
O diabo é que estou morta de fome, e cadê a coragem de me aproximar da cozinha?
4) Estou feliz
Sou a pessoa sozinha mais bem acompanhada que há. O Nextel, depois do fogo e da roda, é a terceira grande invenção da humanidade, empatando com o papel-toalha. Falo com minha família várias vezes por dia.
Sou grata aos recados tão afetivos que chegaram a este blog e à minha caixa de entrada.
Estou feliz por viver em uma cidade tão, tão bonita.
Estou muito feliz por esta cidade tão bonita ser dotada de músicas e comidas que estão entre as que mais me agradam.
Sobretudo, estou feliz por estar progredindo nas minhas tentativas de cuidar de mim mesma.
***
UPDATE final-feliz: minha roomate chegou, jogou a barata fora, me acalmou, me felicitou por meu grande feito e ficou comigo enquanto eu jantava. Uma salva de palmas para ela.
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Vovó, os sustos e os homens
Então chegou o momento que todos esperavam: o momento do sermão pré-viagem da minha avó.
A despeito de sua quase total ausência neste blog - possivelmente pela incompatibilidade do formato blog com o formato vó -, ela é das pessoas mais presentes na minha vida. Me liga todo dia entre dez e onze, e nunca deixa de protestar no dia seguinte quando não me encontra: "filhinha, por onde você andou?". Freqüentemente eu lhe peço para adivinhar onde eu estava. Ela, é claro, quase sempre acerta: "estava jantando na casa da Bel" ou "saiu com o namoradinho" (faz tempo que ela não aposta na segunda alternativa).
Costumo abrir bem os ouvidos para ouvir o que minha avó tem a dizer, pois ela é uma pessoa inteligente e de opiniões fortes, mas que não hesita em relativizar suas idéias quando confrontada com um argumento convincente, bastando este argumento ser de genuína importância para o interlocutor. Foi assim na semana em que quase morri, quando levei o já histórico e ridículo fora: ela me viu daquele jeito e dizia, filhinha, mas você não pode ficar assim, você mal conhecia o moço!, se você tivesse namorado 3, 4 anos, tudo bem, mas assim não pode!... E ficou repetindo essa idéia, enquanto me embalava, até o embalo surtir o efeito desejado. O ritmo cadenciado do balançar do colo de minha avó fez com que eu me organizasse um pouco - o suficiente para lhe dizer que o tempo cronológico de um relacionamento nada tem a ver com o envolvimento, a intensidade e o investimento que se depositam e se vivem nele.
Quando eu disse isso ela parou o embalo, espantada. Que coisa, disse ela. Bem se via que o que eu acabara de dizer não se adequava à sua experiência (e nem tampouco à experiência que ela tinha de mim - ela nunca presenciara nada semelhante nos 3, 4 anos de namoros passados que ela conhecera tão bem); mas compreendeu, e não duvidou mais, da minha experiência.
Então ontem minha avó me olhou muito séria e disse para eu ser uma boa companhia para as pessoas com quem eu conviver, pois não há nada pior do que gente que reclama de tudo; disse para eu lavar minhas roupas e louças, pois até hoje não se tem notícia de roupas e louças que se tenham lavado sozinhas; disse para eu tomar cuidado naquela terra estranha e cuidar bem das minhas coisas, além de pedir para que eu telefonasse na primeira dor de barriga.
(Minha outra avó, em compensação, nada disse - minhas duas avós têm em comum, além do apreço cá por esta neta, apenas o talento culinário -: minha outra avó apenas chorou. Eu nunca a tinha visto chorar antes.)
O tópico mais relevante do sermão, porém, ainda não fora abordado.
Minha avó o introduziu solenemente, dizendo que viera pensando muito sobre um certo assunto, e que precisava conversar comigo a respeito antes da minha partida.
Então minha avó me disse, basicamente,
1) que eu assusto os homens;
2) que devo cuidar para não assustá-los tanto (os pobres).
Antes de passar ao conteúdo dos conselhos, gostaria de lembrar que, em geral, os jovens e adultos costumam escutar os velhos de maneiras bastante díspares, mas no fundo bem parecidas. Ou desconsideram tudo o que eles têm a dizer, aqueles velhos gagás completamente desconectados da realidade da nossa época - ou agem como se estivessem diante de uma esfinge sagrada e empalhada de sabedoria milenar e inalienável. Sim, as escutas são parecidas: o velho gagá e o velho sábio são duas facetas do mesmo objeto interno esquizo-paranóide, depreciado e super-valorizado - e, sobretudo, desvinculado do objeto-externo que um dia lhe serviu de suporte.
Não que eu tente buscar um inexistente meio-termo quando converso com pessoas idosas em geral ou com minha avó em particular, pois certamente existem velhos gagás e velhos sábios no mundo - e, além disso, não é porque minha avó me oferece muitos conselhos sábios que ela também não me dê de lambuja alguns outros que prefiro ponderar e depois esquecer.
Ao conteúdo, portanto:
1) Infelizmente, não se trata de um conselho, mas de um fato que não tenho como negar. Infelizmente mesmo, pois não gosto de provocar susto ou medo em ninguém, ainda mais se considerarmos que eu mesma sou a maior patife que conheço: não consigo nem ir tomar vacina sozinha com medo de desmaiar, morro de aflição ao pensar na escassez de manicures e depiladoras em New Orleans, acordo de madrugada assustada com um pesadelo com o Onorato.
E, ainda assim, tem quem se assuste. Com uma mulher que tem medo de seringas, da própria coordenação motora com alicates e de músicos de jazz caras-de-pau.
2) Taí um típico conselho da minha avó que espero poder esquecer por toda a vida.
Taí um ótimo exemplo de situação sobre a qual penso não ser eu aquela que deve se adaptar ao mundo, mas o mundo (uma pequeníssima parte dele) é que precisa se adaptar a mim.
Porque, se um homem se assusta comigo, é porque ele não entendeu NADA.
E Deus me livre de cuidar para não assustar alguém que não entendeu nada.
Meus próprios sustos já são suficientes para me manter ocupada.
Meus sustos, e minhas saudades antecipadas.
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Sobre a dor da falsa importância
A paixão por livros e discos me é fácil; por humanos, rara. Mais freqüente é a empolgação. Empolgar, me empolgo rapidinho, animadinha; sempre dou o benefício da dúvida a homens que parecem boa gente, e assim vou vivendo uma sucessão de pequenas histórias que, como todo o resto, acabam.
Tem quem prefira dar a receber presentes, e receber a dar foras. É sabido que tem, mas eu é que não. Como não sou celebridade para merecer mimos de desconhecidos, presente vou dando muito mais do que recebendo; já os fins destas pequenas histórias, felizmente, têm tido um saldo bem mais equilibrado. Asveiz é eu, trasveiz é os buona genti que decidem que a história chegou ao fim.
Quando grandes histórias chegam ao fim, a dor é tanta que esteriliza o cérebro, impede a germinação de qualquer idéia verdinha e fértil.
Quando as histórias são pequenas, é mais fácil observar e descrever algumas características particulares a esta dor.
Creio ter descoberto a característica mais marcante desta dor a que meu modo de viver por vezes me obriga a experimentar (dor individual e passageira, cuja presença é tão inegável e insistente quanto sabidamente superável): ela faz com que eu me sinta
importante. De uma importância que extrapola em muito quem eu sou. De repente, passo a ser vista, analisada, criticada - reparada. Como se tudo o que eu fizesse tivesse um valor, um sentido, gerasse ohs de surpresa ou desprezo. No limite, é precisamente
desta dor que estou falando: quando fui assaltada, e pela primeira vez tive medo de morrer, perseguiu-me e irritou-me por dias o terror de que, se eu morresse, não teria deixado nenhum legado para a humanidade. O problema é que não pauto a minha vida por uma suposta, grandiosa e abstrata "contribuição para a humanidade"; nem acho que alguém esteja reparando em mim quando atravesso a rua. Mas quando fui assaltada - e quando levo um pequeno fora, em menor medida - é exatamente assim que me sinto. Olhada e inflada. E falsa - porque nunca esqueço completamente meu real tamanho. É terrível e não vejo a hora de voltar a atravessar a rua em paz.
Nas duas situações, estou sob ameaça: de perder a vida, de perder uma pequena história. Nas duas situações, de alguma forma e em alguma medida, já as perdi. A resposta só pode ser o inchaço: o enfrentamento narcísico de forças muito mais poderosas que - porque externas ao - eu.
Eu não gosto da paralisia que vem com essa sensação (os obesos movem-se com mais dificuldade que os magros e gordos). E eu me pergunto, e pergunto de novo: o que será que o Fulano da Vez pensa de mim? E eu não gosto de perguntar isso, porque todo o problema está justamente em que Fulano da Vez
não está pensando em mim. Só isso. Não é que ele pense A, B ou C, não é que esteja me achando feia, chata ou boba - ele, simplesmente, não pensa. Sou eu que fico tentando me convencer do contrário (afinal, sou tão importante!), mas é só me colocar por um segundo que seja na posição de mim mesma quando mim-mesma encerrou alguma outra pequena história para lembrar que eu não ficava pensando em Sicrano da Vez quando a história com ele acabou. Simples assim.
Além do que, saber o que Fulano da Vez já pensou de mim não altera em nada a presente (e acabada) história. Pensamento é uma coisa, ação é outra; principalmente, os pensamentos e ações de outra pessoa são inteiramente outra coisa.
Pequenas histórias são assim: vão se sucedendo umas às outras até serem interrompidas por uma que venha a ser grande. Estas, curiosamente, também proporcionam um inchaço narcísico fabuloso e fantasioso. Mas, nas grandes histórias, o inchaço é bom. Porque é compartilhado.
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Ataque de angústia fulminante: ignorância, modo quantitativo
A última vez que me senti assim foi na véspera do meu primeiro atendimento supostamente psicanalítico - supostamente porque me disseram que agora sim eu era, aham, uma psicanalista em formação; não que eu tenha acreditado nisso, mas a pessoa que mo disse realmente parecia acreditar, e isso sempre tem um peso -: onze horas da noite, estou me preparando para uma feliz noite de sono a prenunciar um feliz dia psicanalítico, quando pimba! A cruel constatação:
"Mas como é que eu vou fazer um atendimento psicanalítico se ainda não li as Obras Completas de Freud?"Minha sorte foi ter percebido a tempo, por mais que quisessem me convencer do contrário, que minha tarefa era nada mais - e nada menos - que atender um paciente, e não recitar aos ventos os versículos da Gesammelte Werke.
Corta para a noite de hoje.
Fuçando os arquivos
deste tão estimado blog, deparo-me com
um post sobre uma lista dos 100 melhores romances em língua espanhola dos últimos 25 anos.
Ele, pra início de conversa, leu aproximadamente 80% do que está lá, e comenta a seleção com autoridade e bom-senso - sem perder de vista, felizmente, que uma lista é-uma-lista-é-uma-lista.
Abstenho-me de comentar os fatos de que - valha-me Deus! - gostei bastante de A Festa do Bode e que O Amor Nos Tempos do Cólera
é um dos livros da minha vida. Porque isso implicaria adentrar a esfera qualitativa da ignorância, e a fulminância do ataque não me permite tamanha estripulia. Ater-me-ei - com a esperança de que a mesóclise um dia me redima - à
angústia da ignorância, modo quantitativo.
Eu tive a pachorra de verificar qual era a minha porcentagem de leitura daquela lista.
Pra quê.
Aqui entra a importância da melhor amiga, que não só entende perfeitamente a natureza da sua angústia como lhe oferece o conforto mais fofo e honesto, advindo do fundo, do raso e de todos os lados de seu bem-aventurado coração:
- Béééééééu, tem-uma-lista-etc.-etc.-e-o-Idelber-80%-etc.etc.-e-eu-não-conheço-nada!!!
- Calma, Cami: quanto foi que você leu?
-
(4. E em português.)- Nossa,
QUANTO! Parabéns!!!
Eu adoraria que vocês ouvissem a voz da minha amiga para compreender o que é a inocência, a bondade e a compaixão humanas. Hoje eu presenciei uma coisa rara - uma epifania a cuja descrição nem Clarice se atreveria: o momento, sutil e fugaz, em que a pureza de uma alma se desvela em toda a sua inteireza.
Mas nem a pureza desta alma foi capaz de sanar a minha angústia.
Porque se há cinco anos, mais do que ler este ou aquele livro, minha tarefa era atender um paciente, desta vez não há pacientes a atender: somos eu e os livros. Nada entre eu e eles.
No que me pergunto se nesta empreitada new-orleaniana terei capacidade para algo além de 1) comer cookies; 2) seduzir um trompetista. O
Alex, aliás, não duvida de que esta seja a real motivação por trás do meu doutorado: conquistar o instrumentista que falta para a minha banda-amorosa particular. (Mal sabe ele que minha prioridade continua sendo um contrabaixista; aqui no Brasil, como se sabe, esta é uma raça em extinção. E fora que o
Kermit Ruffins, né, tem dó.)
Moving on.
Cookies, trompetistas e contrabaixistas à parte - será que dá?
Será que minha inhorância tem cura?
Por um lado, interrompi uma sensacional leitura justamente para escrever este post. Que não contribui em nada para o fim da minha inhô, mas pelo menos aplaca um pouquinho a angústia.
Por outro,
o homem dos 80% apostou em mim.
E, nem de um lado nem de outro - é capaz que, até New Orleans chegar, eu mesma chegue nos 5%.
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Ficar
Então vocês me dêem licença, que agora eu vou falar. Da confusão mental que está me atravessando.
Primeiro eu queria jogar o tempo numa máquina de comprimir. Primeiro é quando cheguei de viagem. Cheguei gostando tanto da cidade, tão certa de que havia tomado a decisão certa, e tão arrasada com o que me esperava aqui (pudera), que desejei que tudo se resolvesse em uma semana: as burocracias e as despedidas. E que eu voltasse e continuasse com minha vida imediatamente.
Mas isso foi primeiro. Agora vem o depois.
O tempo, quero estendê-lo - esticá-lo como a massa de pizza que só encontramos aqui.
Isso é relatividade: quanto mais tempo livre eu tenho, mais o tempo me falta.
Ando num frenzy diferente. Porque não se trata de querer fazer mil coisas: meu frenzy é de ser. De ficar. Só isso.
Quero ficar na chácara com a minha tia. Na rede, com uns tantos livros no colo e com ela por perto. Trabalhando sempre, e nunca a me perder de vista. Quero ficar no Cenourão com o tio Lima. No sofá, enquanto ele vem e me diz que um dia moraremos todos juntos. E que me ama. Quero ficar na praia com o Gabriel. Na areia, enquanto dormimos. E comemos biscoito. Quero ficar no estúdio com o Tato. Com Augusta e as meninas ali do lado. E com música amada para ouvirmos de novo. Quero ficar no bar com uma amiga tão querida. Enquanto conversamos sobre psicologias e famílias. E tomamos mojitos.
Quero sobretudo ficar em casa. Quero que Lili venha de novo e segure minha mão o tempo todo. Que meu pai venha sempre e segure meus pés. E minhas amigas da USP, e as do HC.
Quero tanto ficar sozinha. E acompanhada também, um pouco. Por um mancebo (essa doeu, eu sei) cuja identidade os chegados já conhecem.
Algumas dessas coisas vêm acontecendo (eu tenho muita sorte). Outras, nem de longe. E nem vão acontecer. Porque a vida pode ser um rio, mas o tempo não é uma pizza.
E tem o afastamento e o fim. Que não posso e nem quero controlar: cada um sabe o que é melhor para a própria vida, embora freqüentemente não saiba. Tem sido um exercício de desapego espiritual que seria instrutivo, não fosse tão sofrido. E inesperado.
No fim, não era confusão. Porque está tudo muito claro. Está tudo muito estranho. E tudo vai ficar muito bom.
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Duas breves e importantes decepções
No curto espaço de duas semanas, interessei-me por dois homens. Primeiro um, depois outro. Ambos interessantíssimos, inteligentes, sedutores. E então desencanei bem rapidinho. Primeiro de um, depois do outro. Quando descobri que eram casados.
1-) Fica a dúvida:
Será que estou completamente maluca, com comportamentos inconscientes repetitivos espiripitifláuticos pulsão de morte total, que me impelem a homens indisponíveis para mim?
Ou será, pelo contrário, que estou elaborando adoidado, percebendo muito rapidamente as ciladas em que poderia cair e me livrando mais rapidamente ainda delas?
2-) Fica o suspiro:
Sempre parto do pressuposto de que, se um homem se aproxima de mim, é que ele está disponível. É um pressuposto idiota, concordo - tanto quanto, por exemplo, achar que tal homem deva ser necessariamente judeu, palmeirense ou petista. Mas eu só posso partir desse pressuposto se eu quiser ser a mulher que sou e gosto de ser. Que é uma mulher que envolve e se deixa envolver. Porque, se eu não partir desse pressuposto ilógico, isto significa o seguinte: que quando vier um cara me passar um caô qualquer, antes de eu reagir ao caô com arrepios e tremeliques na barriga, se for o caso, terei de perguntar antes: "mas escuta aqui, o senhor é casado?". E não tenho a menor propensão a perguntar antes. Sinto primeiro, pergunto depois. Paciência. Suspiro.
3-) Fica a certeza:
Fato é que os dois senhores casados em questão provocaram-me significativos arrepios e tremeliques na barriga. Coisa que eu não esperava jamais, neste momento. Achei que iria levar uns cinco anos - o tempo da pós - para eu sentir de novo uma agulhadinha que fosse. E vi que não é bem assim. Eu sinto, viu. E muito. Estou aberta e vulnerável novamente. Graças a Deus.
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Alguns apontamentos sobre Atonement, o livro (spoilers! back off!) - ou Uma leitura kleiniana de um aspecto de Atonement (spoilers! valha-me Deus!)
Recentemente terminei a leitura de Atonement e desde então não consegui voltar a nenhuma das outras cinco leituras já engatadas. Pensei então que minha leitura talvez não estivesse tão concluída como eu imaginara. Decidi, assim, desenvolver alguns comentários que preciso dividir com alguém que já o tenha lido (se você for uma destas pessoas, por favor manifeste-se) - quem sabe assim a vida volta a fluir como um rio por aqui (um dia preciso contar esta história).
O livro, para mim (e esta é a primeira e última vez que escreverei "para mim", porque vamos combinar que isso é óbvio), trata justamente dos limites do atonement. A tradução por reparação é boa, mas falta-lhe certo je ne sais quoi. Penso em atonement como um misto de reparação e, antes disso, caída de ficha. Isto é, o atonement envolve, além do gesto reparatório, o próprio sentimento de culpa.
Vamos combinar também que minha leitura é kleiniana, claro. São esses os óculos que visto e por meio deles que desejo enxergar. Daí minha relativa insatisfação com a tradução do termo - reparação, em inglês, é reparation mesmo. Atonement parece referir-se, mais precisamente, à própria elaboração da posição depressiva.
Coisa que a Briony adulta e velha faz apenas até certo ponto. A culpa que lhe avassala é necessária porém não suficiente para ela dar à sua própria vida o direito de voltar a correr. Ela empreende, assim, tentativas de reparação. Isso é o que lhe move. Mas, de alguma forma, ela nunca é inteiramente bem-sucedida - o livro acaba com Briony ainda na dúvida se o livro-dentro-do-livro trará o feliz casal na sua celebração de aniversário, tantos anos depois. Ela vive um processo de elaboração infinito, que nunca pode ser concluído - tanto que a saída que se coloca, ao final do livro, é o apagamento puro e simples de sua memória. É tocante, aliás, perceber como, para Briony, sua demência iminente é muito menos traumática do que o cerceamento de uma última tentativa de reparação (i.e., a publicação do livro).
Mas é importante retomar tudo o que de importante o atonement de Briony envolveu. Em uma palavra,
limitação,
empregada aqui no melhor sentido do termo. Limitação de sua onisciência e onipotência. Aliás, é curioso lembrar que, muito antes da onisciência arrogante de Briony, já estava dada
a onisciência da mãe. E limitação, principalmente, da onipotência incrível de seu "Well I can. And I will", uma das frases mais impactantes da obra (ao final do capítulo 13).
Acompanhamos a limitação de sua onisciência nas dúvidas que expressa quanto ao destino a ser dado aos personagens Cecilia e Robbie. Ela sabe que este destino deve ser feliz, mas não sabe de que forma concretizar esta felicidade em palavras. Mais de dez versões depois, ela ainda não está convencida de ter chegado à versão final. Pois, de fato, mil versões não dariam conta do problema de Briony: todo o drama está em seu ato ter levado, mais do que à morte de Robbie e da irmã, à morte de tudo o que eles poderiam ter sido e não serão jamais. Mil, dez mil versões do livro-dentro-do-livro não bastam para cobrir todas essas possibilidades.
E sua onipotência é belamente transferida para o campo da literatura, tão infinito quanto precisamente definido pelos limites da linguagem. Sim, Briony cresce e torna-se Deus - mas apenas no que se refere ao universo da escrita.
Isso é crescimento emocional.
Crescimento que parece impedido justamente no que tange à reparação. Pois Briony não se contenta com a reparação simbólica - e simbólica é
apenas e
tudo o que a reparação pode ser - é como se seu sofrimento só pudesse ser finalmente aplacado por meio da ressurreição dos dois. Voltamos, assim, à onipotência - à revolta com os limites do símbolo - que impossibilita a Briony uma reparação plena. E essa é uma das maiores riquezas do livro: mostrar o crescimento de Briony par a par com sua estagnação. Creio ser desnecessário explicar que estas palavras - "crescimento" e "estagnação" - não se referem a um julgamento moral sobre a personagem, e sim a uma consideração bem próxima de suas estratégias para lidar com o sofrimento.
Mas a saga psíquica de Briony de forma alguma constitui o ponto central do livro. Aliás, pensei e pensei e não cheguei a conclusão alguma sobre qual seria este ponto. Acabei pensando que ele não existe. Ou melhor - existem em tamanha quantidade, que a eleição de um só necessariamente resltará numa leitura incompleta. Como a que acabo de desenvolver.
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Da impossibilidade de curar-se de si
Quanta sabedoria em uma só frase:
"A player should be reconciled to the fact that the elements of his playing are unchanged, like his voice" (Steve Swallow, em entrevista recente ao AAJ).
A reconciliação de que nos fala o músico nada mais é que a elaboração das "many anxieties associated with the fact that one is only onself and no one else" (Robert Caper, no indispensável A Mind Of One's Own, p. 96 - grifo meu).
O difícil e inescapável processo de se reconciliar com quem se é constitui uma das minhas principais questões analíticas - e, por conseguinte, uma das mais candentes obsessões deste blog. Porque a verdade é que bem poucos sabem a dor e a delícia de ser o que é.
Venho tentando fugir da anestesia de ser o que outros admirados são.
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O problema do sexo
ATENÇÃO: Este é um post ranzinza, pentelho e xexelento*. Que reclama da vida a cada parágrafo. Portanto, se você acha que reclamar da vida é injusto para com Deus e os anjinhos - "afinal, você tem saúde, e é isso que importa!" -, nem perca seu tempo.
***
Todo fim de relacionamento traz o inconveniente da falta de sexo.Relativizemos a afirmação acima. Alguns términos de relacionamento vêm justamente para possibilitar a retomada da vida sexual dos (ex-)namorados.
Não é este o meu caso agora.
O Alex, futuro colega de classe e atual amigo indispensável, disse que deve ter transado mais (e com mais pessoas) nos cinco meses que antecederam sua partida para NOLA do que em toda sua vida pregressa.
Por quê? Porque a mulherada que até então ficava na dúvida se devia dar para ele ou não viu em sua partida um sinal dos céus: é agora ou nunca.
Otimista e bem-intencionado, Alex quis me convencer de que a mesma graça divina would be cast upon me.
Antes fosse.
Os homens são muito mais simples. Não têm essa de ficar ponderando quem querem comer. Se têm um mínimo de interesse em quem quer que seja, fazem alguma coisa. Freqüentemente, bastante idiota; dizem, por exemplo, "
ei, eu sou amigo do Toninho Horta!". Mas fazem. Alguma coisa. Deixam entrever suas intenções muito claramente.
Ou seja: os homens que tinham alguma intenção de me comer, já fizeram o que puderam. Não há de ser agora que vai cair do céu um velho conhecido a me dizer - ei, sou amigo do Toninho Horta e sempre te achei interessante, mas nunca tentei nada antes porque sou tímido. Não - este cara disse que me achava interessante no momento mesmo em que decidiu que eu era interessante.
Tímidos conhecidos sequiosos por sua grande chance, portanto, estão descartados de minhas possibilidades atuais. Que mais me resta?
Sempre se pode "cair na balada" para "sair à caça" e "pegar um homem" para "fazer uma putaria".
Acontece que tudo isso me soa tão sexy e excitante quanto ficar em casa assistindo a um programa sobre a vida das cigarras no Animal Planet. Nunca fiquei com pessoa alguma "na balada". Nunca sequer olhei para alguém que eu desconhecesse, ou de cuja vida e interesses eu não soubesse nem que fosse um pouquinho. Devo ser muito mulherzinha mesmo.
Sobraram, como sempre, os amigos dos amigos que ainda estou por conhecer.
O problema é que ando sem disponbilidade alguma para conhecer pessoas novas. E não estou me referindo apenas a este momento pós-término-de-namoro (porque isso seria óbvio), mas ao momento mais amplo que abrange minha partida a um outro país e meu desejo de aproveitar ao máximo a companhia das pessoas que já conheço. Não sobra espaço para ninguém diferente - nem agora, nem quando eu já estiver minimamente recuperada do mal-de-amor.
Esqueci uma categoria de potenciais bachelors. Sempre há os músicos, que se encantam comigo porque sei diferenciar uma tuba de um trombone e um acorde maior de um menor.
Mas faz muito tempo que longuíssimas sessões frente às minhas caixinhas M-Audio substituíram minha gana por ouvir música ao vivo (aqui em São Paulo, bem-entendido).
Isso tudo, como já disse, em São Paulo. Agora, quando penso em NOLA...
Ok, até rola uns músicos por lá - mas, caramba, eles são
americanos!
Americanos - que só abraçam com a parte superior do tronco e não agarram a sua coxa por medo de serem processados por assédio sexual.
Ou então agarram a sua coxa imediata e toscamente por deduzir que você é brasileira, logo puta.
É isso. Este post não propõe nem espera soluções. É apenas um arroubo de mau-humor mesmo. Há de passar.
* E, ainda por cima, sexista e generalizante - não digam que não avisei.Marcadores: repetir elaborar
Inibições e deslocamentos
Primeiro o grande amor da minha vida me rejeitou.
Depois, o amigo a que sempre recorro nessas horas desta vez veio com uma história de que está namorando.
Agora, a room-mate do Alex vetou minha candidatura ao quarto vago da casa com incrível veemência.
O bom de o grande amor da sua vida te rejeitar é que nada mais te atinge. A coisa do amigo e da room-mate não me abalaram por mais do que dois minutos cada. Criancinhas passando fome na África, então? Bah - elas não sabem nada da vida, não sabem o que é sofrer.
O ruim de o grande amor da sua vida te rejeitar é que nada mais te atinge. Na verdade, nunca me importei muito com as criancinhas da África - meu intelecto não é desenvolvido a ponto de eu me deixar afetar por aquilo que não entra pelos sentidos - mas sempre me perturbei enormemente com as crianças e adultos habitantes das ruas aqui de São Paulo mesmo.
Esta semana perturbei-me com minha falta de perturbação. Contornei um mendigo numa praça como quem contorna um saco de lixo.
Eu não gosto de achar que as pessoas são contêineres de lixo incapazes de sofrimento.
Eu não gosto de sentir uma raiva desproporcional de meus jovens e imaturos coleguinhas do curso de espanhol.
Eu não gosto de sentir tanto ódio e indiferença por tanta gente tão sem relação com a minha vida - e não sentir ódio algum por aquele que disparou esse ódio todo em mim.
Sentir, pelo contrário, um amor que podia muito bem durar muito tempo.
Não vejo a hora de poder depositar toda a minha raiva em quem lhe é de direito. Para depois esquecer.
Impossível esquecer o que não se viveu.
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Sabem qual é o desespero?
... É que este último post não era para ter sido um post.
Era para ter sido um entre mil outros assuntozinhos a serem conversados com o Rafa no momento como-foi-o-seu-dia.
Pronto, chega.
Um pouquinho mais de paciência, gente. Só mais um pouquinho.
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A primeira foto + rapidinhas
Esta vai do blog diretamente para o meu porta-retrato:

(Eu e as duas raparigas
naquele parque la.)
So para constar: a parte 2 da viagem esta sendo tao especial quanto a primeira; ja penso em New Orleans como a minha cidade; cidade esta que e uma mistura de Salvador com interior de Minas com cidadezinha americana de filme; cidade que e uma delicia, mas ta tao legal ficar de bobeira com o
Alex que fico tentada a ficar mais dentro de casa do que fora; e divertidissimo acompanhar o povo do departamento transitando tranquilamente entre o portugues, o ingles e o espanhol; aqui o pessoal joga baseball no campus em vez de futebol; os professores sao os primeiros americanos que conheco que cumprimentam com beijo e abraco; gumbo e parecidissimo com moqueca de camarao; o Idelber e mesmo gente como a gente, e das mais queridas; estou com saudade de escrever direito no blog.
Estou com saudade do Rafa.
E tudo indica que serei muito feliz aqui.
EDITADO PARA ACRESCENTAR: As raparigas sao, da esquerda para direita, Bel, Lu e Cami.
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Tristeza
Mais um diálogo verídico neste blog:
Empregada: São quantas horas de vôo, dos Estados Unidos pra cá?
Eu: Bom, depende de que lugar dos Estados Unidos você está falando.
Empregada: Ah, é??!?
Eu: Mas é claro!!!
Empregada: Nossa, Camila, você está muito irritada, melhor eu não conversar mais com você hoje...
No que fiquei bem triste, e por razões que a empregada em questão nem passa perto de imaginar. E o pior: triste, primeiramente, por motivos-clichê, desses que levam a pessoa a se unir a Regina Duarte e Hebe Camargo na luta pela paz. Porque, infelizmente, esta é uma tristeza que não me leva a nada. Outras pessoas, uma tristeza assim seria capaz de mobilizar. Enraivecer, revoltar e estimular a participar de trabalhos voluntários ou mesmo reuniões de condomínio. Mas eu, eu só me entristeço, e com cada clichê lascado. Vamos a eles:
Fiquei triste porque a maioria dos brasileiros acha que os Estados Unidos são uma entidade mítica inatingível; são uma coisa só - portanto, nada mais coerente que, para chegar a este bloco compacto e único, leve-se um número fixo e imutável de horas de vôo. Fiquei triste porque, enquanto tento acompanhar o noticiário internacional para descobrir quantos delegados Obama está à frente de Hillary, a maioria dos brasileiros não sabe o que é um mapa dos Estados Unidos. A maioria dos brasileiros não sabe o que é um mapa do Brasil. A maioria dos brasileiros não sabe o que é um mapa.
A maioria dos brasileiros nunca estudou. Não é que a maioria dos brasileiros nunca tenha ido à escola; a maioria vai, mesmo que por pouco tempo. Mas a maioria dos brasileiros nunca estudou. Eu fui começar a aprender a estudar no terceiro colegial. A maioria dos brasileiros não tem a chance de saber em que consiste o ato de estudar. A maioria dos brasileiros não tem a chance de saber que existe uma coisa na vida que se chama estudar.
A maioria dos brasieiros acha que estou irritada quando estou simplesmente abismada. Com a minha própria capacidade de esquecer todos os clichês acima.
É a culpa da classe média que se sabe privilegiada e não sabe o que fazer com isso. Principalmente a classe média que não se dispõe nem a participar de reuniões de condomínio - mas também não engole um pretenso movimento social capitaneado pela Regina Duarte.
A maioria de mim é acomodada demais para transformar a tristeza em alguma ação positiva. É esta a tristeza maior.
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A primeira briga
Não chegou a ser uma briga, propriamente, mas aí o título do post não teria tanta graça. Foi mais uma coisa que ele fez e que me deixou com um grande beicinho e uma mágoa um pouco maior. Obviamente, não era a intenção, mas de intenções o inferno, etc. Embora talvez ele tenha apreciado o efeito colateral do beicinho. Enfim - conversamos sobre a causa do beiço e da mágoa e mais uma vez vivi uma experiência inédita (têm ocorrido em média uma ou duas por dia).
O conteúdo da conversa é irrelevante; basta vocês saberem que eu estava certa. Não deixa de ser um alívio estar indiscutivelmente certa logo na primeira briga. E mais ainda quando a reação do outro é tão acachapante.
Sempre me deparei com dois estilos principais e dominantes de conduzir brigas e discussões, os quais eu acreditava serem os únicos possíveis. Um é o estilo atleta: não importa a discussão nem os argumentos, o importante é sair vencedor. Outro é o estilo monge budista: nenhuma discussão vale realmente a pena ser discutida, o importante é sair ileso. E assim as pessoas seguem brigando, freqüentemente oscilando entre esporte e religião. Que, curiosamente, são os dois assuntos que não se discutem.
Mas desta vez, o impensável aconteceu. Rafa e eu conversamos e conversamos. E ao final da conversa,
ele pediu desculpas e disse que eu estava certa (!!!?!??!!).
Antecipo possíveis reações dos leitores:
Reação cínica. "Lembre-se dos conselhos de Sawyer para Jin: 'tudo o que você precisa aprender a dizer para uma mulher é 1) desculpa; 2) eu estava errado, você estava certa e 3) essa calça não te deixa gorda'. O Rafa não passa de um malandro ixpérrrto que eternamente fingirá não reparar nos seus significativos pneus."
Reação blasé. "Mas se ele estava errado e você estava certa, o que é que tem demais ele reconhecer isso e pedir desculpas? Por que isso te surpreende? Não é o natural, o certo, o esperado?"
Eu não poderia ser mais solidária a ambas as reações. Em outros momentos, eu teria dificuldade de acreditar que alguém que me peça desculpas esteja sendo sincero (dificuldade prima-irmã à de acreditar que alguém, apesar de tudo, possa gostar de mim). E entendo que um pedido de desculpas como esse pareça absolutamente básico ao leitor emocionalmente estável.
O problema e a verdade é que minha instabilidade emocional aplica-se também às brigas. O atleta e o monge são eu, e estou ciente de que esta frase teria mais impacto no contexto de um livro de auto-ajuda do que neste blog. Como, porém, meu objetivo não é ajudar ninguém, sinto-me absolutamente à vontade para dizer que ainda não descobri o que fazer para não fugir da briga nem da luta desenfreada pela vitória. Pois quando estou errada e não há a menor dúvida disso, empreendo as mais avançadas estratégias retóricas de argumentação, tudo para não perder a briga e conseqüentemente minha perturbada majestade. Ou então coloco-me como a última das súditas plebéias, com um discursinho de "sou-a-mais-errada-das-criaturas" que não convence a ninguém (e muito menos a mim mesma), tudo para não precisar olhar com honestidade e dignidade para a bobagem que fiz. Infelizmente, ainda não aprendi o que fazer, quando faço bobagem.
Assim, quando a situação-causa de nossa briga voltar a acontecer, naturalmente espero que ele aja de forma diferente - de forma a fazer o que é certo e a não me magoar.
Mas, muito mais do que isso, eu espero, na primeira briga provocada por alguma bobagem de minha responsabilidade, poder brigar como ele. O Rafa subverteu minha concepção atlético-religiosa de briga, na qual um sempre perde e o outro ganha, nem que seja por W.O. Aprendi que é possível ganhar - só ganhar. Os dois. Mais ou menos como é possível amar - só amar. Sem sofrimento.
Espero, na próxima briga, fazer jus a este recém-adquirido conhecimento.
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Jogo dos sete erros
Quatro erros que não cometerei neste novo namoro, afinal sou uma bioniana que acredita no aprender com a experiência:
- Não deixarei que pseudo-semi-pretendentes se insinuem para mim e lhe provoquem ciúme; hei de ser grossa e rude, se necessário for.
- Não deixarei de pedir-lhe coisas pelo medo estúpido de estar sendo por demais demandante e portanto megera.
- Não deixarei de dar-lhe coisas pelo medo estúpido de estar sendo por demais doadora e portanto trouxa.
- Acima de tudo, jamais permitirei que ele me veja no pijama de inverno tenebroso que uso desde os doze anos de idade e cuja horrenda visão permanecerá restrita ao meu pai e à Bel (família é pra essas coisas).
Três erros que cometerei ou já estou cometendo neste novo namoro, afinal sou uma paciente que fugiu da análise:
- Não me furtarei a tecer comentários sarcásticos sobre Belchior e Lacan (temos tanto em comum, que é preciso ressaltar as diferenças).
- Não conterei meu ciúme retrospectivo de namoradas pregressas, pelo mero fato de elas o haverem tocado antes de mim.
- Acima de tudo, não deixarei de ficar agarrada a ele por todo o tempo que ele e eu quisermos, a despeito das ressalvas alheias de que estamos sendo por demais rápidos, precipitados, afobados, afoitos etc. Pois sou tão fugida da análise, que não posso compreender por que nosso atual estado de agarramento seria um erro. Ao contrário, parece-me das coisas mais certas que já tive a sorte de vivenciar.
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