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Fenomenologia da saudade
Estou em New Orleans fazendo pós-graduação em literatura e em saudade. E olha que eu achei que já sabia tudo sobre saudade, por causa da morte da minha mãe e de uma certa história infernal que os chegados conhecem muito bem. E não é que estou sendo obrigada a rever - e viver - tudo de novo? Eu não deveria me surpreender, afinal as análises são intermináveis e os complexos de Édipo reelaborados ao longo de toda a vida - eu deveria saber que isso iria acontecer. E no entanto eu não sabia: a mocinha aristotélica que há em mim sobrepujou a freudiana - assim sendo, espantada estou.
Porque diz o senso-comum que a saudade aumenta proporcionalmente ao tempo e à distância que nos separa do objeto amado.
E hoje percebo que isso é mentira. Ou melhor, até pode ser verdade - mas é apenas uma verdade entre várias. No meu caso, a saudade tem vindo em ondas.
A primeira pessoa de quem senti muita saudade chegando aqui foi o meu pai. Porque, por razões que não cabe ficar explicando, a verdade é que meu pai e eu não nos despedimos. Ou nos despedimos muito rápido, no tempo dos relógios, não no meu tempo interno. Não sei como estava o tempo interno dele, como aliás a gente nunca sabe nada sobre os outros mesmo. Fato é que despedidas são importantes, fazem parte do processo de luto e não por acaso passei três anos da minha vida lendo e escrevendo sobre isso. Dizer que não se gosta de despedidas tornou-se praticamente um truísmo emocional, e é fácil entender o porquê - ninguém gosta de perder o que quer que seja, ainda mais a companhia de alguém que se ama. Mas essa afirmação, ao mesmo tempo que aponta para uma verdade, é também bastante imprecisa, como de resto qualquer clichê. A gente não gosta é de perder alguém. Das despedidas, não se trata de gostar ou desgostar, não é isso o que está em jogo: o fato é que precisamos delas. Mas nem por isso sobrevirão grandes tragédias quando uma boa despedida não puder acontecer - como no caso de que estou tratando aqui. Agora a saudade do meu pai está ok. Falo com ele por skype quase todo dia, conversamos sobre música e política, enfim, está tudo bem.
O que não está bem, agora, é a saudade que venho tendo da minha tia.
Ela dormiu comigo na minha cama, por três noites. Em uma delas, senti que ela me fazia um carinho na testa. Fiquei tão emocionada que quis acordar, e tão enternecida pelo poder do gesto que continuei dormindo.
Esse carinho e tantos outros me perseguem agora. Cadê o carinho de tia que não está mais aqui? O gato comeu? Não, o avião levou. Felizmente o avião não leva as memórias emocionais da gente. Mas está ruim. O contato tão próximo com ela durante aqueles dias não mitigou a saudade - pelo contrário, aumentou-a.
Outra saudade que está ficando forte a ponto de me impacientar um bocado é a saudade da Bel. E, pra ajudar, da Lu também. Saudades do contato físico mesmo - assim como o carinho de tia, carinho de Bel e quitute de Lu (os quitutes da Lu constituem uma forma de carinho das mais poderosas que já experimentei). O bom da Bel e da Lu é que, como elas são pequenininhas, cabem fácil num abraço só.
Acho que a saudade da minha tia está mais forte porque ela foi a última a chegar, e a saudade das meninas aumentou por elas serem as próximas a vir.
Já a saudade da minha avó não tem me incomodado muito, ultimamente. Entrei num estado mental de insensibilidade com relação a ela, depois de toda a tormenta com o não-visto. Melhor assim, porque se eu for inventar de sentir qualquer coisinha que seja, estou bem arranjada - só irei vê-la em maio do ano que vem. Mais vale continuar nesta nuvem de numbness mesmo.
Mas é claro que isso é ilusório. A nuvem logo se irá, para mostrar sem dó nem piedade a montanha que é a falta que a minha avó me faz. Minha praia tem várias montanhas, e nelas batem ondas, e meu barco não será por elas derrubado. Porque eu entrei nesse barco para tomar um sol, comer uns peixinhos, ler uns romances. É o que venho fazendo. Literalmente.
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Minha avó, esta ameaça à segurança estado-unidense
Reparem bem na cara de mentirosa dela. Porque ela ainda teve de ouvir isso dos fulaníssimos do consulado: que estava tentando enganá-los, pois não tinha motivo nenhum para voltar para o Brasil.

Da esquerda para a direita, no aeroporto: Grê, eu, Eulália e Brê.
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Carta a mim mesma no futuro
Querida Camila,
Posso dizer que lhe conheço razoavelmente bem, ainda que não tenhamos sido apresentadas; faltam-me, no entanto, alguns dados, todos periféricos ao objetivo desta carta. Não sei quantos anos você tem, onde mora ou o que faz da vida. Sei, não obstante, que algumas coisas permanecem: o amor à música e o horror às uvas passas; o espanto com o ser humano; seu pai, suas tias, sua avó e a Bel. Provavelmente permanecem também coisas que aos 26 anos você não imaginava que seriam duradouras nem tampouco constitutivas da sua personalidade. E permanecem, se tudo correu bem, alguns desejos formados ao longo de muitos meses de gestação psíquica.
Por exemplo, o desejo de amores. Que universo pode estar contido em duas desenxabidas letras: ES. Você largou o osso, Camila. Abriu mão de um amor natimorto para se dedicar a amores vivos. Esta é uma conquista de cuja importância só você pode saber. A partir dela, você virou adulta, sem volta e sem desculpas. Você ficou livre para se deixar prender mais uma vez.
E com isso você sofreu. O momento em que lhe escrevo foi quando você se deu o direito de sofrer - de sofrer de verdade. Porque você se abriu por completo ao prazer, sem medo dos riscos que isso lhe acarretava. E, agora que as amarras que a prendiam foram cortadas, você pôde dimensionar o tamanho daqueles riscos - proporcional à honestidade da sua entrega. Então você se sentiu feliz, e não quis outra coisa para a sua vida: você desejou, para sempre, poder amar desse jeito. Agora, neste passado que não tenho como saber se lhe é recente ou distante, você descobriu o prazer de se desamarrar. Porque é só isso, e apenas isso, o que lhe permite amarrar-se de novo. E muito lhe apraz estar amarrada.
Então, Camila, se por acaso você estiver novamente passando pelo processo de se desamarrar - não importa quem tenha desfeito o(s) nós - eu gostaria de lhe lembrar algumas coisas que me têm sido extremamente prolíficas. Coisas práticas que têm-me feito melhorar. Desamarrar por completo, não sei quando; sei que isso já terá acontecido há muito quando você estiver a ler esta carta, mas agora me é impossível dimensioná-lo. Não importa. Importa lembrar-lhe que você se cuidou e deixou-se cuidar neste momento crucial de agora. Afinal, não deixo de estar vivendo uma segunda gestação psíquica, e gestações não se controlam; no máximo, faz-se o pré-natal com um analista. Dizem que o segundo parto costuma correr melhor que o primeiro, devido à menor ansiedade da mãe. Imagino que seja verdade. Assim como imagino que Houdini deve ter ganhado muito em rapidez e agilidade ao longo de anos de desamarração. E percebo que não consigo me decidir entre uma metáfora e outra, pois ambas se completam: é desamarrar aqui para gestar uma pessoa nova - eu mesma - lá.
Seguem então algumas dicas - não de analista, de parteira mesmo - do que você pode tentar fazer da próxima vez em que viver um processo semelhante. Tenho certeza de que, até lá, você terá criado outra metáfora para designá-lo.
- Leia. Muitos livros ao mesmo tempo, de diferentes autores. Converse. Com muitos amigos, que trazem diferentes histórias. Retome. As filmografias do Bergman e do Fellini. Envolver-se com outras pessoas (reais ou inventadas), além de ser o que mais lhe interessa na vida, terá nesta hora a vantagem de ampliar a sua perspectiva sobre o seu próprio sofrimento. Assim será mais fácil se lembrar de que seu umbigo não está para o universo assim como a estação da Sé para o metrô de São Paulo.
- Não deixe de retornar ao seu umbigo. Não é necessário fingir que está tudo bem. Não tenha medo de reconhecer que está tudo muito estranho, e que você não sabe quando deixará de estar. Não tenha pressa de que a estranheza passe - e, se tiver, não se culpe por isso.
- Estude um novo idioma. Mergulhe na gramática. Descubra novas estruturas gramaticais - descubra que há modos diferentes de pensar. Há modos diferentes de ser.
- Deixe que lhe papariquem. Que sua família e suas amigas a visitem e lhe tragam sorvete.
- Fique sozinha. Reserve a sexta à noite para não se sentir obrigada a nada.
- Cozinhe para si própria.
- Tome um vinho diferente por semana.
- Ouça discos antigos. Os mais amados. Afinal, você já está lendo, vendo e aprendendo coisas novas o suficiente. É preciso retornar a si própria em algum momento. Ouça apenas o que você sabe de cor, e cante junto (daí a necessidade da solidão.) Aos poucos você verá como é fácil inverter os versos de mestre Marçal: não choro mais / meu consolo é cantar.
- Reencontre uma pessoa amada. Uma de quem você saiba que qualquer separação, mesmo que dure anos, é apenas temporária.
- Ouça discos antigos. Mais, e de novo. Deles você não terá de se separar, nunca.
- Escreva no blog. (Espero que você ainda tenha um blog.) Ficou ruim? Ótimo, blog é para isso mesmo. Ficou bonzinho? Melhor: é capaz que alguém se deixe tocar pelo que você escreveu.
Espero que esses conselhos lhe sejam de alguma ajuda. Mas se não forem, no pasa nada: o importante é que eles estão me ajudando agora. É preciso apenas que uma coisa esteja bem clara: você é capaz de melhorar. É só se lembrar de mim. Lembrar que, no primeiro dia, você conseguia fazer bem pouco mais que chorar.
E, quinze dias depois, você já podia escrever esta carta.
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Aprendam aqui o que é o Outro
Desde meados do segundo ano da graduação em Psicologia, venho ouvindo as mais diversas definições deste conceito tão caro à psicanálise lacaniana:
- o Outro é o inconsciente;
- o Outro é a estrutura;
- o Outro é a linguagem.
Três definições, aliás, perfeitamente intercambiáveis, já que
o inconsciente é estruturado como linguagem. Prosseguindo:
- o Outro é o sistema;
- o Outro é o Nome-do-Pai;
- o Outro é a cadeia de significantes;
até chegar à mais recente delas:
- o Outro é o tesouro de significantes (piratas, atacar!).
Então, já que era assim, é claro que eu adorava formular as minhas próprias definições para o esotérico conceito:
- o Outro é o panóptico do Foucault;
- o Outro é a CIA;
- o Outro é o Pedro Bial.
Mas, até anteontem, a única coisa que eu me sentia suficientemente segura para afirmar sobre o Outro sem medo de errar é que se deve escrevê-lo com O maiúsculo e pronunciá-lo "grande outro".
Até anteontem. Porque finalmente, sete anos depois, alguém conseguiu me explicar este conceito que eu já havia desistido de conseguir apreender nesta vida e mesmo numa próxima. Eis
o alguém e sua obra:

A forma como o autor vai aos poucos delineando o conceito é ao mesmo tempo lógica e despretensiosa, pois começa por considerações sobre o estruturalismo e culmina numa nota de rodapé (!). As três primeiras definições que listei parecem-me agora de fato verdadeiras - mas sem a contextualização sobre o estruturalismo de que agora disponho, elas davam ensejo apenas a elucubrações como as três definições por mim propostas.
É que nenhum lacaniano ferrenho (que eu saiba, ao menos) acompanha este blog, mas é fácil imaginar um torcer de narizes frente à superficialidade do meu contentamento com a apreensão de um conceito: que coisa mais rasa e ralé, entender um conceito! Aliás, quanta superficialidade em restringir o Outro a um mero conceito a ser compreendido! Bom mesmo é transitar pelas sombras da dúvida e da ignorância!
Tudo isso é verdade e eu mesma dou pouca importância a conceitos bem delimitados e definições precisas. Só que, vamos combinar,
algum sentido há que se fazer - de um lugar provido de algum sentido é preciso partir. Se não a gente estudaria Lacan em tcheco (o puro significante, não é mesmo?*) e dava tudo na mesma. E ouso dizer que não dá: é bom, é MUITO bom, encontrar um livro cujo autor tem a pachorra de explicar o que é o Outro sem pressupor que o leitor já sabe do que se trata - e sem pressupor, o que é ainda melhor, que o leitor de fato
não sabe do que se trata,
mas isso não importa.
Acompanhemos, portanto, o raciocínio do autor em trechinhos por mim selecionados:
"
Grosso modo, podemos dizer que o fundamento do estruturalismo consiste em mostrar como o verdadeiro objeto das ciências humanas não é o homem enquanto centro intencional da ação e produtor do sentido, mas as estruturas sociais que o determinam." (p. 42)
"A fim de melhor compreender esse ponto, lembremos o que significa 'estrutura social' nesse contexto. O estruturalismo trouxe uma teoria da sociedade que transformava a linguagem
no fato social central. Processos como trocas matrimoniais, modos de determinação do valor de mercadorias, organização do núcleo familiar, articulação de mitos socialmente partilhados seriam todos
estruturados como uma linguagem, até porque a linguagem é, antes de mais nada, um modo de organização, de construção de relações, de identidades e de diferenças. Neste sentido, ela fornece
a condição de possibilidade para a estruturação de toda e qualquer experiência social." (p. 42)
"Tudo se passa como se as relações com o outro, nossas ações ordinárias, escondessem as mediações das estruturas sociolingüísticas que determinam a conduta e os processos de produção de sentido.Tal ilusão nos faria esquecercomo temos relações com a estrutura antse de termos relações com outros indivíduos. Como se
a verdadeira relação intersubjetiva fosse entre o sujeito e a estrutura, e não entre o sujeito e os outros." (pp. 42-43)
"(...) mesmo as modalidades de apreensão subjetiva da ação da estrutura são determinadas pela própria estrutura. O sujeito pode objetivar a estrutura que determina seu pensamento e falar dela em um discurso da terceira pessoa, como se fosse um Outro. Mas não pode objetivá-la a partir de uma perspectiva que não seja determinada por este próprio Outro." (p. 43)
No que chegamos à nota de rodapé salvadora:
"Aqui já podemos compreender a diferença lacaniana crucial entre 'outro' e 'Outro'. Os 'outros' são fundamentalmente outros empíricos, que vejo diante de mim em todo processo de interação social. Já
o 'Outro' é o sistema estrutural de leis que organizam previamente a maneira como o 'outro' pode aparecer para mim. O primeiro diz respeito aos fenômenos, o segundo, à estrutura." (p. 43, grifo meu)
A nota continua, mas foi a frase grifada que me permitiu, enfim, pensar o Outro a partir de um lugar semanticamente viável. E, por isso, sou grata ao Rafa**.
* Piada interna.
** O livro foi o primeiro presente dele para mim. Nerd. Total. Adoro.Marcadores: recordar elaborar
Dez autores, vinte livros
Elaborar listas é uma experiência deliciosa, assim que você faz as pazes com sua angústia da ignorância qualitativa e se resigna diante do fato de que uma lista-é-uma-lista-é-uma-lista que necessariamente terá um ponto final. Pois ontem superei essas duas dificuldades e me diverti muito montando uma lista inédita em minha vida: a de livros e autores preferidos. Gostei tanto da experiência que decidi publicar o resultado aqui no blog, embora ele não seja nem de longe tão interessante quanto o processo por que passei para chegar a esses dez escritores e suas obras. Menciono um ou dois livros de cada, com comentários de no máximo três linhas sobre as circunstâncias em que os li, as sensações que me despertaram e, muito raramente, sobre algo de seu conteúdo. Para arredondar, fui acrescentando à lista outros dos meus livros fundamentais até que totalizassem vinte - afinal, o melhor das listas é a possibilidade de brincar com seus parâmetros e critérios.
Sobre estes últimos, uma ressalva. Não vou fingir que não senti uma leve pontada de vergonha ao constatar que minha lista não inclui Clarice ou Guimarães Rosa (embora eu tenha lido muita ou pouca coisa de ambos, e gostado bastante) e conta, por outro lado, com a presença de um psicanalista norte-americano praticamente desconhecido até nos cursos de graduação em Psicologia, e com uma autora de livros infanto-juvenis. Mas a vergonha não foi maior do que o desejo de ser honesta para com a minha própria experiência: afinal, meu único critério para elaborar esta lista foi selecionar os livros que me emocionaram mais. E como estou cada vez mais cansada de me envergonhar das minhas próprias emoções, segue a lista em toda sua obviedade e idiossincrasia:
Freud. A Interpretação dos Sonhos e textos como O Estranho, Luto e Melancolia e Além do Princípio do Prazer, tanto quanto a (pouca) experiência analítica que acumulei como analisanda, analista em formação e supervisionanda, definitivamente salvaram a minha vida.
Dostoiévski. O Idiota - quando o li, ele era a única coisa no mundo que conseguia me fazer esquecer por uns breves instantes uma paixão muito sofrida. Quando descobri que o homem amado também amava O Idiota, é claro que me apaixonei mais ainda. Crime e Castigo - ainda consigo sentir o gosto amargo que Raskólnik produzia em minha boca. A experiência sinestésica paradigmática da minha vida.
Vargas Llosa. Tia Julia e o Escrevinhador - que outra história teve um desfecho tão minuciosamente bem construído e tão maravilhosamente engraçado?
García Márquez. O Amor nos Tempos do Cólera (a história mais comovente de todos os tempos), Cem Anos de Solidão (dã).
Calvino - Os Nossos Antepassados, embora eu ache que eles sejam nossos contemporâneos também.
Monteiro Lobato - para citar apenas o meu preferido, Os Doze Trabalhos de Hércules, que me levaram a montar um altar para Palas Atena no meu quarto.
Lygia Bojunga Nunes - outra autora fundamental da minha infância. A Bolsa Amarela e A Casa da Madrinha deviam ser leitura obrigatória para o vestibular. A Casa, em especial, é um dos relatos mais tocantes sobre as relações entre fantasia e realidade com que já tive a sorte de me deparar.
Vale entrar autor de quem li livro só? Bom, a lista é minha, então vale:
Proust. No Caminho de Swann ensinou-me que os limites do representável são muito mais elásticos do que eu tolamente acreditava.
Amós Oz -
De Amor e Trevas valeu por uma segunda análise.
J.M. Coetzee -
Desonra foi a leitura mais compulsiva dos últimos anos.
Outros livros altamente estimados: Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso; Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Barthes; Para Viver um Grande Amor, de Vinícius; Subjects of Analysis, de Ogden; Carta ao Pai, de Kafka; Ficções, de Borges; Na Praia, de Ian McEwan e As Palavras, de Sartre.
EDITADO PARA ACRESCENTAR: Eu juro que tentei me comportar como uma blogueira antenada e multimídia, que usa e abusa dos mais diversos recursos gráficos em seus posts para prender a atenção do enfastiado leitor. (Os diversos recursos gráficos, no caso, não passam das fotinhos dos livros acima mencionados, mas ninguém precisaria ficar sabendo disso.) Se você chegou até aqui, caríssimo leitor, é sinal de que não está tão enfastiado assim; se você, além disso, souber o que se há de fazer para que o editor de textos do blogger publique aquilo que diagramei nele, damn it!, é favor compartilhar seus conhecimentos secretos comigo e com o restante da humanidade no espaço para comentários aí de baixo. Obrigada.
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Minha vida amorosa
Dia desses uma amiga que andava afastada me liga e pergunta:
- E aí, Cá, como anda a vida amorosa?
Pausa à la Matrix. Atentem bem para o vocabulário utilizado: minha amiga não perguntou se eu estava saindo com alguém, ou se tinha conhecido uma pessoa nova. Não indagou se eu estava apaixonada ou desiludida. Não quis saber se eu tinha voltado com meu ex-namorado, ou mandado-o às favas. Tampouco se interessou em saber se virei lésbica, libertina ou freira. Nada disso: minha amiga perguntou de minha vida amorosa.
Bom, uma pessoa minimamente racional pode interromper a leitura por aqui, pois é óbvio que qualquer um é capaz de entender o que minha amiga quis dizer: ela perguntou tão-somente se estou dando para alguém nos dias que correm. Mas, por algum motivo, não consegui me ater ao significado pretendido. Tanto que forneci a resposta mais idiota que alguém poderia conceber nesta situação:
- A vida amorosa... vai indo.
Felizmente, porém, a resposta não soou nem de longe tão idiota quanto efetivamente se revela agora por escrito, pois a verdade é que minha amiga estava muito menos interessada em saber como andava minha vida amorosa do que em informar-me sobre a dela.
Mas o objeto deste texto é a pergunta, não a resposta - e, principalmente, seu extraordinário efeito de fazer com que, de repente, eu sentisse que não estava mais conversando com minha querida amiga, e sim com a última edição de Nova. Pois que outra pessoa utiliza a expressão "vida amorosa" além da editora-chefe de Nova?
Afinal, em Nova, bem como em suas publicações-irmãs, fala-se muito das seguintes áreas da vida: saúde, trabalho, família, e vida amorosa. Tá certo, muitas vezes vida amorosa é substituída por vida sexual, ou mesmo por amor. Mas meu ponto aqui é que nunca encontramos um teste que avalie sua vida higiênica, vida trabalhista, vida familiar e amor. Donde se conclui que: 1) o cuidado com a saúde, o trabalho e a família não constituem propriamente aspectos da vida, reduzindo-se a meras distrações com que nos ocupamos enquanto não vivemos a vida verdadeira, a amorosa; 2) as vidas higiênica, familiar e trabalhista de uma pessoa são obrigações que nada têm a ver com o amor. (O leitor atento perceberá que 1 e 2 são duas faces da mesma moeda, e o leitor desatento atentará para a repetição desnecessária do termo "vida" nos períodos anteriores. Já o leitor chato será o primeiro a lembrar que eu mesma utilizo a expressão "vida amorosa" no meu perfil do blogger.)
Não sei quanto aos leitores atentos e desatentos, mas com relação à minha própria vida - a única, aliás, sobre a qual posso falar com alguma autoridade - não houve até hoje uma relação amorosa sequer que não me tenha demandado um trabalho desgraçado. E, por outro lado, minhas quiçá fúteis tentativas de ser feliz ainda nesta vida implicam fazer dela uma experiência amorosa em sua totalidade. Porque, goste eu disso ou não, apenas o amor é capaz de me mover. O amor e os prazos, claro. Mas talvez eu esteja usando amor, aqui, em oposição a medo. Já vi gente trabalhar que nem louca por medo da reação do chefe, do orientador, do supervisor - enquanto que eu, ao sentir medo de qualquer espécie de retaliação por parte de quem quer que seja, viro uma songa-monga legítima.
Mnha vida amorosa aproxima-se daquilo que Freud chamava de vida sexual - e que, no meu caso, inclui as minhas amigas, os pais delas, este blog e os discos do quarteto americano do Keith Jarrett. E do europeu também, lógico.
Minha vida amorosa às vezes melhora muito quando estou dando para alguém. Outras vezes piora.
Minha vida amorosa pode até caber num post, mas certamente não cabe como resposta a uma pergunta que serve prioritariamente como trampolim para uma afirmação do interlocutor.
E, pensando assim, minha resposta até que foi bem espirituosa:
- Minha vida amorosa... vai indo.
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Link do dia #2
Ai, ai, mais um clique diário em minha vida: Jorge Garcia agora tem um
blog!
A idéia inicial era que fosse, como indica o título, uma espécie de diário das gravações da quarta temporada. Aparentemente, porém, Darlton entrou em pânico com a possibilidade de divulgação de spoilers, e então Jorge ficou em dúvida sobre o que fazer com o blog. Quase desistiu! Felizmente, porém, choveram comentários dos proverbiais 4 cantos do mundo - sendo que o canto mais proeminente foi cá este nosso, mesmo - pedindo que o blog continuasse, e ele disse ao povo que ficava. Ou quase isso: hoje ele escreveu sobre seus sentimentos de primeiro-dia-de-aula suscitados pelo primeiro dia de gravação.
Resta-nos esperar mais postagens para ver se ele "desistiu" (as aspas devem-se ao fato de ele ter sido "educadamente convidado" a isso) de falar sobre as gravações, ou se pretende ir ganhando a confiança dos produtores aos poucos, ofertando-nos minutos de sabedoria da ilha sem estragar qualquer possível surpresa. Quem sabe? Enfim - mesmo que ele decida se restringir a assuntos como o apetite dos cachorros (vide post #6), devo dar uma passada por lá todos os dias. Espero, com isso, saciar meu desejo diário por perdição...
P.S.: Para aqueles que estão com a sobrancelha franzida e emitindo um "ahn?!" neste exato instante: meus amigos, vocês estão deixando a vida passar por vocês. Se você é uma pessoa viva no planeta Terra neste momento histórico da humanidade - pré-condição necessária para ser um leitor deste blog - e NÃO assiste a LOST, isso quer dizer que você está jogando no lixo uma das mais fantásticas experiências que a condição humana pode nos proporcionar. Você está sacrificando parte do seu ser cada vez que decide não assistir a um episódio de Lost pela primeira vez para fazer qualquer outra coisa. E tenho dito.
P.P.S.: Seja dado o crédito a quem é devido: a dica do link foi do CA Monteiro, do sensacional
Lost in Lost.
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