Mudei de endereço

Postar um comentário

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Contabilidade amorosa de 2008

Não é pra somar tudo, as coisas se sobrepõem:

1 relacionamento que eu estava achando o melhor de todos os tempos o amor da minha vida a paixão que a-*
1 luto concluído, 3 anos depois
3 significativas acelerações no batimento cardíaco:
2 dos aceleradores viraram amigos
1 sumiu
1 casinho em São Paulo
1 sonho erótico em New Orleans
1 amor em Edmeston
5 historinhas virtuais:
1 evoluiu à materialidade
3 permaneceram virtuais
1 em andamento
3 foras levados
4 distribuídos
Dos 3 levados: 1 traumático, 1 ridículo, 1 ok
Dos 4 dados: 2 reações patéticas, 2 ok
1 historinha que não engrenou porque francamente nenhum dos dois estava muito interessado
1 revival
2 peças de lingerie virgens
2 peças de lingerie estreadas
2 peças de lingerie que eu queria comprar mas não tenho pra quem usar
3 preciosas lições aprendidas sobre o meu próprio corpo
989248098 e-mails com múltiplas camadas de intenções
Muito menos sexo do que eu gostaria


Ainda faltam dois meses para terminar o ano e já estou fazendo uma retrospectiva - sinal inequívoco da minha desesperança em excluir a última linha desta contabilidade. Dizem que o que vale é a qualidade, não a quantidade. Eu não poderia concordar menos. Qualidade já tenho, muito obrigada: minhas relações sexuais costumam ser qualitativamente boas ou ótimas. Todo o problema é que têm sido poucas.


* O relacionamento acabou assim, exatamente como esta frase.

Marcadores:

Postar um comentário

Considerações sobre a minha identidade acadêmica a partir da política estado-unidense

Dos romances que tive de ler para uma certa disciplina até agora, todos foram notadamente bons, ótimos ou excepcionais (por mais que eu tenha me enfastiado até o último fio de cabelo castanho com um deles). Todos, menos este: um best-seller típico, dramalhão mexicano do novo século, previsível, conservador, preconceituoso, homofóbico e machista. E, principalmente, divertidíssimo.

Nem preciso dizer que, de tantos livros geniais, meu preferido foi justamente o best-seller mais vulgar e rasteiro. O que nos leva a pensar: seria eu a hockey-mom da crítica literária?

***

Li também alguns contos de autores pós-modernos, cults e chiquérrimos, que não venderiam nem com a ajuda de Silvio Santos & Oprah combinados. E, apesar ou independentemente disso, provocaram-me um significativo escorrimento de baba.

O que suscita nova questão: seria eu a maverick dos críticos literários?

Postar um comentário

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Quando o amor atrapalha

Passada a ressaca das eleições de ontem, convém lembrar que faltam menos de dez dias para o pleito aqui do norte, e o candidato dos camarões e das tubas tem tudo para levar. Na verdade, a eleição de Obama parece tão certa que só consigo visualizar dois cenários possíveis nos quais ela não se concretizaria, cada um envolvendo a aparição de uma das seguintes pessoas no estado de mais puro apaixonamento:

1) Bin Laden
2) Uma amante

Porque, a esta altura, não bastaria um Bin Laden qualquer: teríamos de ver um Bin Laden literalmente vestindo a camis(et)a do Obama, e se possível um boné, e usando também um chaveirinho e uma caneca do Partido Democrata para arrematar. A mesma coisa a amante, com a diferença de que seu amor teria de ser expresso não por roupas e sim por fotos, várias e exuberantes fotos, e se possível um vídeo erótico caseiro para não restar dúvidas.

Ok: talvez o chaveirinho, a caneca e o vídeo sejam um pouco de exagero de minha parte. Mas, de resto, os dois cenários delineados acima, embora não muito prováveis, são inteiramente possíveis, e é disso que eu tenho medo. Enquanto o mundo se preocupa com o voto do eleitor branco de classe média-baixa dos swing states, eu só quero saber uma coisa, todos os dias: e o Bin Laden? E a amante? Apareceram? Não? Então tudo bem, para todo o resto dá-se um jeito. Respiro aliviada e vou fazer minhas coisinhas. Até a manhã seguinte, quando começa tudo de novo: e o Bin Laden? E a amante? Sinto a mesmíssima aflição até abrir o google reader, antes mesmo de tomar café, e constatar que nada mudou: a Rússia continua ali bonitinha do outro lado da janela e os fundamentos da economia continuam fortes.

Sério. O medo desses dois enamoramentos está acabando comigo. Ainda bem que falta pouco para eu voltar a tomar o meu café em paz.

UPDATE: É claro que, para além do Bin Laden e da amante, sempre há a possibilidade de matarem o Obama.

Esta é uma daquelas noites em que vai ser ruim e difícil dormir sozinha. Eu queria o meu pai, ou a minha avó, ou meu ex-namorado querido, enfim, alguém, que me pegasse no colo e me dissesse, shhh, calma, vai passar, por horas a fio, o tempo que fosse necessário, até eu me deixar (con)vencer pelo cansaço e dormir protegida. Mesmo sendo tudo mentira.

Marcadores:

Postar um comentário

domingo, 26 de outubro de 2008

Dos chicas in a Halloween parade!

Isso sim é o que eu chamo de uma verdadeira experiência antropológica. A roomate e eu fomos a uma parada de Halloween hoje à noite, que nada mais é que uma second line repleta de gente fantasiada:


Pelo que entendi, rola uma espécie de malhação do Judas, com a diferença de que o Judas daqui tem cara de abóbora. Qualquer hora vou me informar direito sobre esse lance das abóboras; os nativos com que conversei não souberam me explicar qual a simbologia do (legume? fruto? tubérculo?). A não ser, é claro, que algum leitor curioso ou americanizado queira fazer o trabalho sujo por mim e me entregar a abóbora bem mastigadinha aqui nos comentários.


O Judas deste ano, se continuo entendendo bem, foi um especulador ganancioso de Wall Street. Acima, detalhe do (carro alegórico?).


Crise econômica: só o vodu salva.


Os camarões votam Obama!


When I die Hallelujah by and by / I'll fly away... As tubas também votam Obama!


Crianças em carros alegóricos atiraram-nos doces! Eis Isabel com o saldo: uma barrinha de Kit Kat, um candy bracelet chiquérrimo e alguns pirulitos.

Ah. E lembram quando todos consideraram uma coincidência-mor o fato de ela ter o mesmo nome da minha melhor amiga?

Esqueçam.

Ela faz aniversário no mesmo dia que a minha mãe.

Se eu fosse religiosa, estaria me benzendo e fazendo sinal da cruz até agora.


Eu cheguei a comentar que ganhamos pirulitos?


A melhor árvore de Frenchmen Street.


O melhor carro alegórico! John McCain e Sarah Palin acenavam aos transeuntes enquanto bradavam "we're mavericks!". Sarah, em particular, entoava também os gritos de guerra "I can see Russia from my window" e "vote Tina Fey!", levando o povo ao delírio.


Detalhe do (carro alegórico, que seja) mais popular da 6 t' 9 Halloween Parade.


Foi muita emoção!!! Não é todo dia que a gente tem a oportunidade de estar tão perto de um ídolo. Thank you, Sarah! As mulheres do Brasil estão com você!

***

Depois de duas horas seguindo a comitiva, só nos restou comer muito macarrão e beber muito vinho, así que não me responsabilizo pela sintaxe e concordância deste post. Buenas noches e lembrem-se: amanhã, votem Tina Fey.

Postar um comentário

sábado, 25 de outubro de 2008

Teoria do cafezinho e da turbulência

Meu amado Alex possui uma teoria sensacional e particularíssima para explicar o fenômeno da turbulência nos aviões. Diz ele que o cafezinho causa as turbulências: afinal, qualquer um pode constatar que, mal as aeromoças começam a movimentação dos carrinhos para servir-nos o café nosso de todo vôo, é batata que tudo começa a balançar.

Pois eu venho comprovando a veracidade desta teoria pelo meu blog. Outro dia escrevi um post dizendo que não havia sido convidada para um jantar. Meia hora depois - eu disse meia hora depois -, o convite chegou. Agora eu escrevi um post sobre boquetes e o sentido da vida. Meia hora depois - adivinharam? - recebi um convite para um boquete.

Então, Deus, já que é assim:

Outro dia joguei na loteria, e não ganhei. Que coisa! Etc. etc.

Eu não entendo por que as pessoas falam lotêria - vamos começar a falar lotéria, que é bem mais legal? Ops, os nordestinos já falam assim. Etc. etc.

Pronto, já fiz a minha parte. Pode mandar os milhões para a minha conta.

Postar um comentário

Reflexões sobre o sentido da vida a partir das diferentes pronúncias de boquete

Não faz muito tempo, aprendi a suposta pronúncia correta desta palavra tão expressiva. Suposta porque ainda não me conformei com ela, e este texto vem justamente advogar uma pronúncia alternativa. Acompanhem meu argumento:

Boquéte, que me dizem ser o correto, rima com o quê?

Era uma vez
Uma menina coquete
No carnaval, jogava confete
Sua mãe a reprovava
Por ser uma piriguete
Ninguém ignorava
Que ela fazia boquete

No haikai acima, temos que praticamente todas as palavras terminadas em éte aludem a moçoilas de pouca massa encefálica para quem as práticas sexuais são uma questão de moda e uma maneira de chamar a atenção do próximo (que tanto pode ser o contemplado pelo boquete quanto a mãe, as amigas, nossa sociedade repressora-capitalista etc.) - como a evangélica que beijou uma garota só para experimentar e outros soníferos eróticos afins.

Vejamos agora como ficaria o haikai caso a pronúncia correta fosse boquête:

Era uma vez
Uma menina gulosa
No carnaval, brincava gostosa
Para ela o maior banquete
Era se refestelar num cacete
Por isso, esplendorosa,
Sempre fazia boquete

Claro que cada um é cada um e sempre haverá quem prefira um boquéte coquete a um boquête de quem aprecia um cacete. Ainda assim, é difícil contrapor-se ao argumento de que algo feito com prazer e vontade costuma dar mais certo do que algo feito por puro coquetismo. E, ademais, boquête não faz distinção de gênero: se boquéte pressupõe uma aprendiz de vedete, o boquête está aberto a homens e mulheres, bastando para isso o gosto pelos banquetes.

Modestamente, portanto, venho por meio deste post propor o abandono da primeira pronúncia em prol da segunda. Afinal, o mundo será um lugar melhor quando as pessoas pararem de se impor certos prazeres exógenos aos seus desejos: acordar cedo nas férias para aproveitar; trabalhar muito para gastar ainda mais; beijar uma garota para experimentar, e assim por diante. Já temos tantas obrigações inapeláveis em nossa vida profissional e pública, por que impô-las também ao âmbito da vida privada? Por que não podemos, ao menos nas férias, acordar apenas quando os olhos se abrirem; ao menos o dinheiro pelo qual tanto trabalhamos, gastá-lo apenas no que nos convém; ao menos o tesão, investi-lo apenas em pessoas e fazeres que realmente desejamos?

Eu não sei por que não podemos. Sei que, como aliás todo mundo, já fiz muitos boquétes e boquêtes nesta vida, e quiçá em outras. Diferentemente de todo mundo, porém, tenho me esforçado cada vez mais por me dedicar apenas aos boquêtes - aos prazeres aos quais tenho ganas de me entregar com plena convicção. Convido todos a fazerem o mesmo - a vida fica mais estranha e assustadora quando temperada por boquêtes, e também muito mais divertida.

Postar um comentário

Um conto, para variar

Depois do esmagamento


Fui uma criança bissexual; não posso mais escapar desse reconhecimento tardio. A prima era igual a mim, só que melhor: loira, rica e culta. Pois com que então uma menina de sete anos sabia falar inglês tão perfeitamente? Não me ocorria que, aos sete anos, o inglês de minha prima inglesa regulava perfeitamente com meu português de brasileira, nem tampouco que toda sua imaginada riqueza advinha tão-somente de sua condição de estrangeira e habitante do país que minha mãe fazia questão de visitar todos os anos. Mas, na real, cultura e riqueza eu digo aqui, agora – na época, na doce época de nossas brincadeiras de médico e paciente, esses eram elementos mais sentidos do que pensados. Na pré-histórica época, o único de seus traços que chegava a tomar forma em meu pensamento eram seus longos cabelos doirados: eu, última criança do planeta a refestelar-se com o Tesouro da Juventude, já ia bem avançada no curso de deterioramento da auto-estima promovido por obras que invariavelmente atribuíam “chusmas de caracóis doirados” às crianças de alma pura. A Anna faltavam os caracóis, mas isso em nada me incomodava: o mais importante era descobrir de que maneira o ouro havia se deslocado desde os aros de algum anel até grudar nos cabelos da minha prima, sacando fora todo o negrume.

O negrume, desde sempre, era eu, que enganava minha mãe e só tomava um banho a cada dois dias; eu e meus cabelos que tampouco eram “negros como a pena brilhante do urubu”. Meus cabelos eram marrons e castanho não constava da lista de adjetivos contemplada pelo TJ. Pensando bem, eu não era negrume coisa nenhuma, isso de novo é agora, sou eu tentando criar pontezinhas mimosas entre acontecimentos que se eu esperasse mais um pouco perigavam morrer na memória. A verdade sem mimos nem afinos é que eu era essa massa castanha que não sabia o que era nem a que vinha – também, ufa, né, sete anos, vamos combinar. Não por acaso e muito menos à toa, portanto, o papel que sempre me coube representar em nossas brincadeiras hospitalares foi o de paciente: “doutor, não sei o que eu tenho…”

Ela era o médico cujo procedimento consistia em despir-me e, vestido ele, esmagar-me com o peso de seu corpo - enquanto perguntava, perguntava e esmagava, onde é que doía. É claro que a dor nunca chegava, e hoje não sei se a localização da dor permanecia imprecisa pelo meu desejo de que o exame não terminasse nunca ou pelo medo do tratamento que viria em seguida. Do jeito que escrevi parece que as duas alternativas são a mesma coisa. Talvez seja, e eu nunca reparei? Querer que tudo continue igual versus o medo de que fique diferente.

Agora seria o momento de dizer que meu primo era o oposto de Anna, pois era grande, feio, índio e meio burrinho para o meu gosto. Aos quinze anos, nem português ele falava direito. E também era pobre e morava no interior do Brasil. Seus cabelos eram o “negro liso e brilhante” das crianças misteriosas, e ouso acrescentar à iconografia do TJ que eram cabelos rebeldes também. Os verdadeiros cabelos rebeldes não são os desgrenhados, esses qualquer um passa a mão e arruma. Cabelo rebelde é aquele que não se torce às vontades de nenhum pente e nenhuma mão. E os cabelos de meu primo eram absolutamente impermeáveis ao meu toque. Luís, portanto, era rebelde e muito mais estrangeiro que a estrangeira Anna, pois na pré-histórica época em que produtos e pessoas importadas eram garantia de qualidade e segurança, tudo o que vinha do Brasil era olhado com reservas e desprezo.

Então vejam que o certo seria dizer que meu primo Luís e minha prima Anna eram o negrume e o doirado, o tosco e o refinado. Só que, não se esqueçam, eu não sou uma pessoa certa: ainda sou castanha de raiz. E Anna, quando era a Anna que eu mais gostava, era homem. Luís também. (Também, ele não teria inteligência nem imaginação para ser qualquer coisa que não ele mesmo.)

Luís me arrastava para debaixo da cama e, entre imprecações contra o estrado – não sei como ele conseguia se machucar com o estrado da cama, mas ele dava um jeito –, introduzia a língua na minha boca e ali ficava, rodando, sempre para a direita. Um dia sua irmã menor nos surpreendeu e perguntou se estávamos nos beijando. Ele respondeu que não, que estávamos cagando. A menina correu assustada, e não sei como não fugi junto com ela. Então como é que é, a gente estava cagando na boca um do outro?! E aí deu-se o milagre. Porque enfim eu decidi que, mesmo que aquilo fosse sujo, uma caganeira dos diabos. Mesmo assim, eu queria pagar para ver. Eu queria sentir a língua dele circulando para o outro lado. Eu queria que a minha língua fizesse alguma coisa. Eu já queria, depois de tão pouco tempo, perguntar, atravessando colchões, lençóis e estrados:

Depois do esmagamento, vem o quê?

Criança, fui bissexual, e isso é certo. Mas minha xis-sexualidade atual não me importa: ocupam-me os esmagamentos e as distensões, e sobretudo as línguas - e sobretudo os corpos.

Marcadores:

Postar um comentário

Escavando abóboras

Segue o registro da experiência antropológica da semana:








Bom fim de semana a todos!

Postar um comentário

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Separados no nascimento, a saga

Dando prosseguimento à nossa anti-popularíssima série "Separados no nascimento" (ignorem as moçoilas, por favor):

Tord Gustavsen



Junior Lima


Pena que a música é um pouquinho diferente. Para quem ouviu a musiquinha da semana do blog e se interessou, o disco pode ser baixado inteiro aqui (de graça, que eu sei das condições proletárias dos leitores). Vale alertar que ele é igual do começo ao fim - folk songs, mocinha sussurrante, melodias simples, arranjos mais ainda, piano ECM-like bem gravado. Ame-o ou deixe-o, pois. Depois de umas vinte audições, eu amei. Vocês? Alguém?...

Postar um comentário

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Fenomenologia da saudade

Estou em New Orleans fazendo pós-graduação em literatura e em saudade. E olha que eu achei que já sabia tudo sobre saudade, por causa da morte da minha mãe e de uma certa história infernal que os chegados conhecem muito bem. E não é que estou sendo obrigada a rever - e viver - tudo de novo? Eu não deveria me surpreender, afinal as análises são intermináveis e os complexos de Édipo reelaborados ao longo de toda a vida - eu deveria saber que isso iria acontecer. E no entanto eu não sabia: a mocinha aristotélica que há em mim sobrepujou a freudiana - assim sendo, espantada estou.

Porque diz o senso-comum que a saudade aumenta proporcionalmente ao tempo e à distância que nos separa do objeto amado.

E hoje percebo que isso é mentira. Ou melhor, até pode ser verdade - mas é apenas uma verdade entre várias. No meu caso, a saudade tem vindo em ondas.

A primeira pessoa de quem senti muita saudade chegando aqui foi o meu pai. Porque, por razões que não cabe ficar explicando, a verdade é que meu pai e eu não nos despedimos. Ou nos despedimos muito rápido, no tempo dos relógios, não no meu tempo interno. Não sei como estava o tempo interno dele, como aliás a gente nunca sabe nada sobre os outros mesmo. Fato é que despedidas são importantes, fazem parte do processo de luto e não por acaso passei três anos da minha vida lendo e escrevendo sobre isso. Dizer que não se gosta de despedidas tornou-se praticamente um truísmo emocional, e é fácil entender o porquê - ninguém gosta de perder o que quer que seja, ainda mais a companhia de alguém que se ama. Mas essa afirmação, ao mesmo tempo que aponta para uma verdade, é também bastante imprecisa, como de resto qualquer clichê. A gente não gosta é de perder alguém. Das despedidas, não se trata de gostar ou desgostar, não é isso o que está em jogo: o fato é que precisamos delas. Mas nem por isso sobrevirão grandes tragédias quando uma boa despedida não puder acontecer - como no caso de que estou tratando aqui. Agora a saudade do meu pai está ok. Falo com ele por skype quase todo dia, conversamos sobre música e política, enfim, está tudo bem.

O que não está bem, agora, é a saudade que venho tendo da minha tia.

Ela dormiu comigo na minha cama, por três noites. Em uma delas, senti que ela me fazia um carinho na testa. Fiquei tão emocionada que quis acordar, e tão enternecida pelo poder do gesto que continuei dormindo.

Esse carinho e tantos outros me perseguem agora. Cadê o carinho de tia que não está mais aqui? O gato comeu? Não, o avião levou. Felizmente o avião não leva as memórias emocionais da gente. Mas está ruim. O contato tão próximo com ela durante aqueles dias não mitigou a saudade - pelo contrário, aumentou-a.

Outra saudade que está ficando forte a ponto de me impacientar um bocado é a saudade da Bel. E, pra ajudar, da Lu também. Saudades do contato físico mesmo - assim como o carinho de tia, carinho de Bel e quitute de Lu (os quitutes da Lu constituem uma forma de carinho das mais poderosas que já experimentei). O bom da Bel e da Lu é que, como elas são pequenininhas, cabem fácil num abraço só.

Acho que a saudade da minha tia está mais forte porque ela foi a última a chegar, e a saudade das meninas aumentou por elas serem as próximas a vir.

Já a saudade da minha avó não tem me incomodado muito, ultimamente. Entrei num estado mental de insensibilidade com relação a ela, depois de toda a tormenta com o não-visto. Melhor assim, porque se eu for inventar de sentir qualquer coisinha que seja, estou bem arranjada - só irei vê-la em maio do ano que vem. Mais vale continuar nesta nuvem de numbness mesmo.

Mas é claro que isso é ilusório. A nuvem logo se irá, para mostrar sem dó nem piedade a montanha que é a falta que a minha avó me faz. Minha praia tem várias montanhas, e nelas batem ondas, e meu barco não será por elas derrubado. Porque eu entrei nesse barco para tomar um sol, comer uns peixinhos, ler uns romances. É o que venho fazendo. Literalmente.

Marcadores: