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segunda-feira, 12 de maio de 2008

O dia em que impedi um vexame

É vasto o repertório de piadas musicais envolvendo a figura da mulher do músico. Mulher de músico que também é cantora, então, nem se fale - tipo a banda do Miles Davis no inferno, maravilhosa até que se descubra que tem por vocalista sua namorada (ou amante, dependendo da versão).

É igualmente notório o fato de que, na produção de um filme, quem cuida da fotografia é o fotógrafo, do figurino é o figurinista, e assim por diante - mas, quando o assunto é trilha sonora, todo mundo está autorizado a dar opinião, do contra-regra à mulher do trilheiro. Sendo que esta última nunca gosta de nada que não seja "música pra chorar", isto é, qualquer coisa com violinos bem agudinhos ao fundo.

As feministas que me perdoem, mas esse anedotário todo é de uma sabedoria imensa. Posso falar com autoridade sobre o assunto, porque eu mesma já fui mulher de músico - e brinquei adoidado de produtora musical. Eu dava palpite em tudo, na proporção inversa ao meu embasamento para tal: do repertório aos arranjos, dos músicos aos timbres escolhidos, da mixagem à escolha da melhor versão de cada música, eu metia o nariz e os ouvidos no que quer que saísse das caixas.

Mas nada disso teve relevância alguma se comparado à única contribuição realmente significativa que, na condição de mulher de músico, pude oferecer à música popular brasileira.

Era uma vez os primeiros ensaios do duo de um certo pianista com uma certa cantora. No repertório, a primeira versão de Gabriela na íntegra depois da original de Passarim. Ouvíamos, o pianista e eu, o resultado de um dos ensaios - prestando semi-atenção, pois jantávamos ou sei lá o quê. Mesmo semi-ouvindo, porém, já me parecia óbvio que se tratava de uma releitura como poucas vezes Jobim mereceu - embora eu achasse, opinião que até hoje mantenho, que o baião do final podia ser mais lento. Mas enfim. Tudo mais do que bom, tudo mais do que bem.

E eis que, aos quarenta e oito do segundo tempo, quando já está claro que o juiz não vai dar nem um segundo de prorrogação, a cantora entoa lindamente as duas últimas palavras da canção:

"QUEBRA QUEEEEEEBRAAAAAAAAAA-AAAAAAAAAAAAAAAAAAA..."

Segue a reconstituição fictícia de um diálogo que não tenho a menor idéia de como transcorreu:

Eu: - O quê??!?!???

Pianista: - O que o quê?!

Eu: - Como assim, o que o quê?? Você não ouviu?!

Pianista: - O que o que o quê??!?

Eu: - Agora! No final! Quebra-quebra!

Pianista: - Jura?!?

Eu: - Por Jacob! (Isso para que não haja dúvidas sobre a ficcionalidade do diálogo, pois naquela época LOST ainda não havia se firmado como a minha religião.)

Correria, pause, botãozinho que volta o cd, play, QUEBRA-QUEBRA!, gargalhadas.

Eu: A Gabriela tá quebrando tudo!

Pianista: Não, ela pegou um ônibus e daí rolou o maior quebra-quebra!

Incluam aqui mais duas ou três piadas prontas (tipo quebra-quebra com orelhão etc.).

Pianista: Afinal, como é a letra mesmo?

***

E foi assim, amigos, que impedi o vexame de um dos mais lindos discos já gravados no Brasil ter retratado Gabriela como uma louca arruaceira.

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